Reinventar a pintura de Van Gogh em desenhos animados

Vincent van Gogh volta a ser uma personagem de cinema através de uma longa-metragem de animação: "A Paixão de Van Gogh" inspira-se diretamente nas telas do pintor.

Foi já há mais de vinte anos, em 1995, que o filme Toy Story, dos estúdios Pixar, revolucionou a nossa perceção dos desenhos animados em cinema: a primeira longa-metragem de animação totalmente executada com o recurso a computadores abriu um novo capítulo numa saga que, até aí, tinha os estúdios Disney como protagonistas (curiosamente, em 2006, a Pixar viria a ser adquirida pela Disney).

Agora, com A Paixão de Van Gogh (estreia hoje), não estaremos perante um fenómeno da mesma escala, até porque não há comparação possível com o poder promocional da Pixar/Disney. O certo é que este filme correalizado por uma polaca, Dorota Kobiela, e um inglês, Hugh Welchman, entra na história também como um objeto pioneiro: trata-se da primeira longa-metragem totalmente criada a partir de imagens a óleo.

Importa, em qualquer caso, não encarar o acontecimento como uma espécie de novo momento "zero" na história da própria animação. Isto porque A Paixão de Van Gogh nasce de um sugestivo cruzamento com a rotoscopia, um dos mais primitivos processos de animação (concebido há cem anos por Max Fleischer, animador americano nascido na Polónia), envolvendo criação de desenhos a partir de imagens previamente filmadas, permitindo reproduzir, por exemplo, os gestos e movimentos dos atores.

Assim aconteceu na gestação de A Paixão de Van Gogh. Mais de uma centena de desenhadores trabalharam a partir de uma dupla estratégia figurativa. Por um lado, foram registadas ações com atores, incluindo Robert Gulaczyk no papel do pintor e outros assumindo várias pessoas que encontramos nos seus quadros - por exemplo, Jerome Flynn, Saoirse Ronan e Douglas Booth, respetivamente como o Dr. Gachet, Marguerite Gachet e Armand Roulin (este tratado como "narrador" do filme). Por outro lado, os espaços dessas ações foram desenhados a partir dos próprios quadros de Van Gogh, incluindo os célebres Terraço do Café à Noite e Quarto em Arles, ambos de 1888.

Apetece definir os resultados como uma espécie de "pintura em movimento". E assim é, sem dúvida - não será preciso o espectador ser especialista em Van Gogh para ir detetando linhas, cores e enquadramentos que há muito pertencem a um certo imaginário popular da pintura. Ao mesmo tempo, porém, o filme vai cumprindo um programa dramático apostado em resistir aos estereótipos "psicológicos" que, não poucas vezes, condicionam a representação do pintor - central no argumento é mesmo a discussão das condições dúbias em que ocorreu o seu suicídio. Nesta perspetiva, podemos considerar A Paixão de Van Gogh como um trabalho cúmplice de obras de exceção que já trataram a personagem, incluindo A Vida Apaixonada de Van Gogh (1956), do americano Vincente Minnelli, e Van Gogh (1991), do francês Maurice Pialat.

A caminho dos Óscares?

Será que A Paixão de Van Gogh poderá funcionar como momento fundador de um novo capítulo da animação? Claro que a abordagem crítica de um filme não envolve o dom da "profecia". Em todo o caso, registe-se que o filme obteve já neste ano o prémio do público no Festival d"Annecy, em França, reconhecido como um dos mais importantes certames no setor da animação cinematográfico. E sublinhe-se também o especial cuidado com que está a ser tratada a sua exibição nas salas dos EUA.

O eventual impacto americano de A Paixão de Van Gogh poderá mesmo ser um trunfo decisivo para a temporada de prémios e, no limite, para a obtenção de uma nomeação para o Óscar de melhor longa-metragem de animação.

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