Ramiro, um alfarrabista a maravilhar o Doclisboa

O 15.º Doclisboa arranca na quinta-feira com ficção: Ramiro, comédia de Manuel Mozos. Um festival com trunfos de luxo

A edição de 2017 do Doclisboa - Festival Internacional de Cinema tem nomes de peso do documentário internacional mas o prato forte são mesmo as obras do cinema português que aqui estreiam. O Doclisboa mantém a tradição de revelar o que de novo se faz no panorama documental internacional e, mais do que nunca, abre-se a várias formas de cinema. A partir de quinta-feira, Lisboa vai ter uma seleção mais abrangente sem o festival perder a veia de intervenção política e social.

As boas notícias estão logo a abrir, na sessão inaugural com Ramiro, de Manuel Mozos, com argumento de Mariana Ricardo e Telmo Churro, porventura a dupla de argumentistas mais iconoclasta do novo cinema português. Um filme de ficção num festival que é barómetro da vanguarda do cinema do real? Talvez faça sentido, pois Mozos é um cineasta que já esteve no Doclisboa com documentários. Provocação ou não, a ficção este ano é uma mensagem da organização - a sessão final, Era Uma Vez Brasília, de Adirley Queirós, também não tem o carimbo doc e é cinema de ficção científica.

Neste Ramiro, viajamos para uma Lisboa contemporânea, para um bairro onde habita Ramiro, rapaz quarentão que é alfarrabista e está a viver uma crise de idade. Algures preso entre o desejo de perseguir o seu sonho literário de poesia e uma acomodação a um quotidiano pacato, acaba por se envolver numa intriga telenovelesca (a telenovela aparece aqui como personagem em plano omitido) com a filha da vizinha, coisa que mete pai cadastrado com segredos do arco da velha.

Estudo de personagem fascinante, Ramiro é outorgado por uma "fofura" que se cola à nossa pele. Ficamos imediatamente reféns emocionais deste patusco beberrão, amigo dos amigos e cínico de primeira. Uma imensa personagem de cinema servida por um ator tremendo, António Mortágua (quem vai ao teatro em Lisboa já reparou nele...), que parece absorver alguma da aura do próprio Mozos.

E se há a tal "fofura" urbano-depressiva neste humor tão próprio, Ramiro é um conto sobre um poeta que se abre à vida quando não estava à espera. No fundo, é sobre a vida a acontecer no meio das pequenas rotinas confortáveis. Ramiro começa a ficar um homem que vê a vida e que vê também Lisboa a fechar tascas e a ficar menos lisboeta. Um belíssimo regresso de Mozos à ficção. Quem não estiver na abertura do Doclisboa só poderá conhecer este urbano-depressivo em 2018 quando o filme se estrear nos cinemas.

O ano de 2017 é um ano feliz no cinema documental português. O Doclisboa tem filmes portugueses que já vimos, como Diário das Beiras, de Anabela Moreira e João Canijo, sequela de Portugal - Um Dia de Cada Vez. São mais viagens deste par que entra pelas casas adentro de famílias portuguesas pelas Beiras. A organização é incomparavelmente mais criteriosa do que o primeiro filme, em que se sublinhava um pouco a traço grosso um ideal de Feios, Porcos e Bons... Diários das Beiras não é, seguramente, restos das filmagens do primeiro filme. É muito mais do que isso, trata-se de um retrato de um Portugal cada vez mais isolado, cada vez mais esquecido. Aqui sim, esta gente idosa ganha uma dimensão humana que bate forte no nosso coração. A ruína de Portugal está aqui em todo o seu esplendor, mas também é necessário lembrar que foi filmado em 2014. Mais uma vez, tal como em A Fábrica de Nada, há quem cante para espantar os males. E há canções que têm a justeza de sete minutos na voz de uma senhora idosa.

Anabela Moreira, cada vez mais a guinar para trás da câmara, apresenta ainda a curta A Mim, dez minutos de observação a uma família que vive de um negócio numa rulote a vender farturas. Uma câmara invisível a captar um gesto maternal. Se Anabela demora dez minutos nessa busca, Valérie Massadian, em Milla, uma coprodução luso-francesa, precisa de 128 minutos e de truques da ficção para o mesmo efeito. Vai ter muito hype, mas pede-se algum cuidado. Milla não sobrevive a esse hype que ganhou em Locarno.

Da competição portuguesa, recomendação muito forte para António e Catarina, de Cristina Hanes.

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