"Portugal aproximou-se um pouco mais de África"

"O que o Rock in Rio fez cá nenhum outro festival destes fez", diz ao DN Paula Nascimento, programadora do palco EDP Rock Street, que na edição de 2018 é inteiramente dedicado às músicas do continente africano

Natural de Luanda, Paula Nascimento programou as três edições do festival África em Lisboa e esteve na direção do Teatro Maria Matos. Adora as artes. Teatro, dança, música, artes plásticas. Agora foi convidada a programar o palco EDP Rock Street África no festival Rock in Rio. Bonga, Tabanka Djaz, Paulo Flores, Batuk, Ferro Gaita, Kimi Djabaté, Karlon, Nástio Mosquito ou Selma Uamusse são alguns dos nomes para ver na Bela Vista até dia 30.

Como é que surgiu este convite do Rock in Rio para fazer a programação do EDP Rock Street?
A iniciativa é do Rock in Rio, de dedicar um palco na edição deste ano, ao continente africano. Não estive na edição que foi apresentada no Rio de Janeiro, em 2017, mas vi pelos media que a programação e mesmo o formato era ligeiramente diferente. Lá muitas bandas repetiam-se, o que não acontece no formato de Lisboa, que é um formato de bandas individuais, de três por dia. O convite surgiu porque o Rock in Rio procurava alguém que fizesse a programação a partir de cá. Chegaram até mim com este desafio.

Como é que eles a descobriram?
Acho que foi por causa de eu já trabalhar nesta área há 20 anos e do festival que eu organizei há muitos anos, o África em Lisboa, que foi um festival que teve grande impacto. Tive um contacto por telefone a perguntar se podiam dar o meu número para o Rock in Rio. Eu trabalho em programação e em produção nas artes performativas, que é a minha área, mas nos últimos anos tenho trabalhado muito com artes plásticas, visuais, associando também sempre à música, que é uma área do meu coração. É muito difícil dissociar da minha atividade. A área da cultura tem muitas especificidades.

Ao fazer a programação o seu maior critério foi a abrangência, ou seja, representar um pouco de todo o continente africano e não só, por exemplo, a parte lusófona?
Foi um trabalho difícil. Não complicado. Mas difícil. Era necessário alinhar uma série de vertentes diferentes umas das outras e isso não foi imediato na minha cabeça. Queria mostrar primeiro do que tudo uma África atual, moderna, sendo que a modernidade africana constitui-se muito das nossas tradições. Mas há uma modernidade em África que, no exterior, não me parece muito...

...conhecida...
conhecida... que não é muito fiel à realidade africana. Interessava-me muito conseguir mostrar essa África contemporânea. Daí as bandas mais tradicionais, mais modernas, os vários géneros, isso tudo. Interessava-me poder sensibilizar para África enquanto continente e não enquanto ideia de país, que muitas vezes existe, inconscientemente. "Vou a África" ou "A música africana". É desconstruir isso um bocadinho, para ser as músicas africanas, os países africanos. Daí também a questão das culturas, porque até em países muito próximos há culturas completamente diferentes. Também me interessava os países não serem exclusivamente lusófonos. Uma vertente importante, que é a de que os músicos podem cantar nas suas línguas originais. Apesar de poder haver alguma dificuldade em compreender o conteúdo, eu sempre achei que isso pode ser resolvido depois. Se as pessoas gostarem e aquilo que sentirem lhes tocar, depois vão à procura e vão descobrir.

Há também a questão dos públicos...
Sim porque o Rock in Rio é um evento enorme com uma diversidade de públicos muito grande. Então as propostas foram também no sentido de poder interessar a um público mais velho, a um público mais jovem, que gosta mais de hip hop, de eletrónica. Enfim, compor esta malha, não foi logo evidente nem foi imediato. Foi-se fazendo. Com intuição e sensibilidade. Depois há toda a parte técnica, que é se as bandas podem nas datas, se está tudo alinhado. E fazer isso tudo num tempo record...

Começou em janeiro...
Arrancou em janeiro e foi apresentado a 27 de março.
Eu nunca tinha vindo ao Rock in Rio e para mim era tudo novo.

Os músicos acharam estranho o convite para tocar num festival como o Rock in Rio?
É surpreendente. Não estranho. O que queremos desconstruir é essa ideia: é estranho África estar? Estar onde não tem que estar? Tem que estar. Tem que estar, como os outros, naturalmente. Ninguém estava à espera. Nem eu. Porquê? Porque é um dos maiores festivais de música do mundo, centralizado num género de música pop/rock a um nível global, onde eventualmente há poucos músicos africanos que se inscrevem nessa vertente.

Onde se integrava normalmente este tipo de música era em palcos de World Music...
Exato. Por isso é importante reconhecer que isto que o Rock in Rio fez, nenhum outro fez cá. Nenhum um outro festival dedicou, sequer que seja uma parcela, a África. Isto tem que ser muito valorizado. Foi por isso que também que quis acreditar. Quando estas iniciativas surgem devem ser bem acolhidas pelos africanos e pelas culturas africanas. Porque, normalmente, há sempre uma ideia de depreciação, que não é falsa, é verdadeira, porque os africanos são depreciados, e quando isso não acontece, nós temos é que apoiar. E estar lá. Por isso considero que era importantíssimo estar no Rock in Rio. Por essa razão.

Como é que vê este interesse crescente, não só em Portugal, mas por toda a Europa, por formas musicais africanas, como por exemplo a kizomba? O complexo colonialista desapareceu?
Não desapareceu, mas está atenuado e então isso nota-se. É o reflexo de qualquer coisa. O facto de as coisas estarem atenuadas, não significa que há uma grande mudança de fundo de mentalidades. Não há. Ainda. Estamos ainda nesse processo.

As novas gerações estão mais livres da carga da história do passado...
As novas gerações, sim, são menos complexadas, também porque não viveram nem passaram pelas experiências dos mais velhos. Quanto à questão do estar na moda...

...sim...
Há uma aproximação. Portugal aproximou-se um pouco mais de África, demonstrou um pouco mais de interesse, de curiosidade e isso reflete-se na sociedade. Mas há também qualquer coisa que tem que ver com os géneros musicais. A kizomba, o kuduro. O kuduro, eletrónica global, tem muito mais facilidade em expandir. A kizomba é uma música africana urbana de grande expressão fora de África. E pode ser um pouco por aí. Há este crescente interesse por África, mas não é de agora, porque África é um potencial de vida, de sonho, de humanidade, de juventude...

Enquanto a Europa envelhece...
Sim. Há mesmo estudos que apontam que daqui a 50 anos a maior percentagem de população jovem será africana, mas mesmo ao nível de quase 50%, entre os 15 e 45 anos. À esperança de vida há que acrescentar também esperança de desenvolvimento. Então, por essas razões, económicas, políticas, demográficas, penso que estamos no bom caminho.

Faz sentido, por outro lado, falar de brancos que se interessam por música de negros?
Houve muito sofrimento. Muito oportunismo. Houve a colonização, a escravatura, todo o manancial que está lá. Houve um povo oprimido por outro. Passam muitos séculos. Nalgumas frentes isso ainda se verifica. Mas depois vamos todos dançar kizomba. É talvez mais por aí. Há essa discussão com o kuduro, que é de Angola, onde foi criado e inventado. Quando os cabo-verdianos fazem kuduro os angolanos também vêm reclamar que é deles. Então não é por aí. O que acho que é que há ainda uma desconfiança das boas intenções. Porque recentemente vimos um êxodo de portugueses para Angola e de repente voltaram todos. Porquê? O que move as pessoas? Eu, pessoalmente, não faço diferenciação entre brancos e negros. Há africanos brancos e europeus negros. Há muitos jovens portugueses negros. É verdade que as pessoas do continente africano têm uma tez mais escura. Aí sim. Mas de resto essa divisão não faz sentido.

Quando agora foi lançado o livro de Kalaf Epalanga - Também os Brancos sabem Dançar - falou-se muito nisso...
Sim. Mas também há um aproveitamento político do tema do racismo. Acho bem que se fale. Mas os discursos têm que estar mais atualizados.

A Paula organizou três edições do festival África em Lisboa (2005, 2006 e 2007). Porque é que nunca mais houve?
Não faço ideia. Na altura foi um convite da EGEAC, do Manuel Falcão, depois de eu apresentar proposta. Então fui contactada porque queriam ter um palco sobre África nas Festas de Lisboa. Era um palco muito diferente deste do Rock in Rio, tanto a nível de espaço, como de orçamentos. Desenvolvi esse projeto três anos, foi muito bem acolhido pelo público, pela imprensa, foi muito surpreendente porque na altura não havia projetos dessa natureza e, sobretudo, projetos que apresentassem música fora do contexto lusófono. Teve um enorme impacto. Depois, com a mudança de legislatura na Câmara de Lisboa, o projeto foi descontinuado. A justificação? Falta de verbas.

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