Poeta brasileiro Ferreira Gullar morre aos 86 anos

Vencedor do Prémio Camões de 2010 e proposto ao Nobel não resistiu a uma pneumonia. Na arte, iniciou o neoconcretismo, na vida foi preso político e exilado

Ferreira Gullar, poeta, escritor, dramaturgo, crítico de arte, biógrafo, tradutor e cronista, morreu ontem no Rio de Janeiro, aos 86 anos, no Hospital Copa d"Or, por complicações pulmonares que derivaram em pneumonia. Considerado um dos maiores autores do Brasil do século XX, Gullar foi eleito em 2014 "imortal" da Academia Brasileira de Letras.

Em 2002 foi proposto por escritores brasileiros, norte-americanos e portugueses para o prémio Nobel da Literatura. Em 2010 recebeu o Prémio Camões, o mais importante galardão literário da Comunidade de Países de Língua Oficial Portuguesa. Por duas vezes, em 2005 e 2007, foi contemplado com o prestigado Prémio Jabuti. Venceu o Prémio Molière, em 1985, pela tradução da peça "Cyrano de Bergerac".

"O seu legado é a obra mas a sua vida também foi bonita, difícil e de grande dignidade, o sofrimento do exilado não lhe tirou a graça", disse a escritora também "imortal" Nélida Piñon.

Nasceu José Ribamar Ferreira, em São Luís, capital do Maranhão, no Nordeste do Brasil, a 10 de Setembro de 1930, como quarto de 11 irmãos. Decidiu tornar-se poeta durante a adolescência, frequentando os baresintelctuais e boémios da Praça João Lisboa e o Grémio Lítero-Recreativo da cidade maranhense. A poesia dos compatriotas Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira, que numa primeira abordagem o escandalizaram, de acordo com o seu perfil na Academia Brasileira de Letras, acabaram por se tornar guias para as suas obras. "Eu queria inventar a linguagem a cada poema", disse um dia Gullar, definindo-se como "um poeta experimental radical".

Em 1954, com 24 anos, lançou "A Luta Corporal", associado ao surgimento da poesia concreta, movimento do qual se afastaria mais tarde, integrando o neoconcretismo, com outros poetas e artistas plásticos, como Lygia Clark ou Hélio Oiticica, no Rio de Janeiro, cidade para a qual havia migrado anos antes. Foi o próprio Gullar quem escreveu o manifesto do movimento, em 1959, publicando em paralelo o ensaio "Teoria do Não Objeto", obra seminal do grupo. O período neoconcreto de Gullar é marcado pelas obras "livro-poema", "poema espacial" e "poema enterrado",

O trajeto de Gullar é então atingido pela turbulência política no país, a propósito da instalação da ditadura militar, em 1964. Ingressou no Partido Comunista, foi detido e passou a viver na clandestinidade e fora do país, em cidades como Moscovo ou nas sul-americanas Santiago, Lima e Buenos Aires. Na capital argentina escreveu "Poema Sujo", em 1976, um poema de 100 páginas, traduzido em diversas línguas e considerado a sua obra-prima.

No ano seguinte voltaria ao Brasil, sendo novamente preso e torturado durante 72 horas até ser libertado graças à intervenção de amigos artistas. Depois de solto, ao longo dos anos 80 do século passado escreveu poemas inéditos, colaborou com jornais e tornou-se argumentista televisivo - nas séries "Carga Pesada" e "Araponga". Pelo meio, publicou coletâneas poéticas e escreveu relevantes ensaios sobre poesia e artes plásticas, outra das suas paixões. Atualmente era cronista semanal do jornal Folha de S. Paulo, revelando-se nos últimos textos crítico dos governos do Partido dos Trabalhadores (PT).

O corpo de Gullar foi velado ontem e o enterro realiza-se hoje no Rio.

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