Os golos de Eusébio revistos em biografia pouco inspirada

Aplicando métodos de natureza televisiva, Eusébio - História de Uma Lenda propõe uma memória do nome mais mítico do futebol português e a revisão repetitiva dos seus golos

Perante a estreia do filme Eusébio - História de Uma Lenda, de Filipe Ascensão, importa começar por reconhecer que estamos perante uma exceção do mercado. De facto, na paisagem imensa do audiovisual contemporâneo, o futebol tem uma presença quase nula nos circuitos cinematográficos. As suas representações televisivas - dos diretos dos jogos à proliferação de espaços de comentário e análise - constituem um dado dominante do nosso quotidiano (social e simbólico), superando de forma esmagadora as abordagens de qualquer prática artística, da música à literatura, passando pelo próprio cinema.

Como é óbvio, esta era uma oportunidade interessante, até porque as memórias cinematográficas de Eusébio são também muito escassas (os que já frequentavam as salas escuras no pré-25 de Abril lembrar-se-ão do título Eusébio, a Pantera Negra, uma produção espanhola francamente medíocre). O certo é que o projeto parece satisfazer-se com uma colagem mais ou menos "descritiva" e banalmente hagiográfica, aliás sustentada pelos breves e pouco inspirados depoimentos de figuras como Cristiano Ronaldo, Figo ou Rui Costa. Será que os futebolistas estão condenados a ser os novos santos dos nossos altares mediáticos?

Estranhamente, sendo um objeto concebido para exibição cinematográfica, Eusébio - História de Uma Lenda apresenta-se organizado a partir da mais rudimentar retórica televisiva. Desde logo através da acumulação de imagens de arquivo tratadas de forma superficial, por vezes francamente confusa. Há muitos extratos de jogos que nem sequer são contextualizados, recorrendo-se até a imagens emblemáticas da história social portuguesa (por exemplo, os espectadores a assistir às primeiras emissões de televisão na montra de um estabelecimento comercial) tratadas de modo arbitrário, podendo surgir para "ilustrar" a receção de qualquer jogo.

Na sua ligeireza informativa, o filme falha, por isso, na dimensão mais basicamente jornalística. A presença do próprio Eusébio é um trunfo, sem dúvida, mas o enquadramento das suas falas diminui o possível valor do testemunho. Por duas razões narrativas: a primeira decorre da pontuação gratuita das memórias por uma fútil "reconstituição" da infância de Eusébio, num registo típico do maniqueísmo dramático das telenovelas; a segunda envolve os sublinhados "espetaculares" de uma música cuja grandiosidade postiça acaba por tratar o futebol como um jogo que, no plano das imagens e dos sons, se resume à acumulação repetitiva (e descontextualizada) de golos e mais golos...

De tudo isso decorre, afinal, a dimensão mais bizarra de um projeto como Eusébio - História de Uma Lenda. Assim, não será necessário passar dez horas por dia a seguir as conversas televisivas sobre futebol para compreender um dado interessantíssimo: nas décadas de 1960 e 1970, desde as movimentações típicas de atacantes como Eusébio até às formas de organização das defesas, jogava-se de acordo com estratégias e táticas muito diferentes do futebol contemporâneo. Que elementos de informação ou análise o filme nos fornece para conhecermos e compreendermos tais diferenças? Zero. É pena que um jogo tão complexo e fascinante seja tratado com esta pompa gratuita.

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