O primeiro grande romance traduzido de 2016

O escritor galês Cynan Jones é apresentado aos leitores portugueses com uma narrativa de frases tão afiadas que cortam

Nas novidades literárias para este ano o primeiro grande destaque vai para um romance de 132 páginas, intitulado A Cova, de autoria do escritor Cynan Jones.

Quem é este autor que tem desde 2006 vários contos e este livro publicados em Inglaterra pela Granta e que até agora passara discreto pelas mãos dos editores portugueses, mesmo que seja considerado o novo Dylan Thomas da literatura da Grã-Bretanha?

O nome de Cynan Jones não é empurrado para a proximidade de Dylan Thomas por acaso, é que sendo este um dos mais conhecidos da literatura feita no País de Gale, e sendo aquele da mesma nacionalidade, seria mais facilmente apresentado ao mundo por essa falsa razão.

Em entrevista, Cynan Jones desfaz esse mito. Mas nem era preciso preocupar-se em fazê-lo pois a ferocidade, e ao mesmo tempo a beleza da sua prosa, distinguem-no do grande escritor/poeta que foi Dylan Thomas. Aliás, se também há muita poesia na prosa de Jones, diga-se que este escritor procura o seu próprio caminho e é essa narrativa tão diferente que se pode ler na edição que a Editora Cavalo de Ferro faz agora chegar às livrarias.

O romance de Cynan Jones não passou despercebido na língua inglesa, quanto mais não fosse pela sua reinvenção da pontuação, e já venceu os prémios Jerwood Fiction Uncovered, em 2014, e o Wales Book of the Year Fiction, em 2015. Também foi traduzido na Alemanha, Espanha, EUA, França e Itália. Portugal é o país que segue, na tradução de Rita Carvalho e Guerra.

Poder-se-ia perguntar o que leva a considerar este A Cova como o primeiro grande romance publicado no nosso país neste início de ano, e a resposta não é difícil de dar. Basta ler as três primeiras páginas para o leitor se sentir ameaçado pelo que pode suceder à violenta descrição do estado físico de um texugo que foi caçado por cães profissionais nesta atividade, ensinados por um "homem grande", que vai atravessar o livro num confronto invisível com o protagonista do livro, Daniel.

Pode-se pensar que a caça ao texugo é um tema desinteressante, mas o tratamento que é dado no livro aos sentimentos humanos funciona como um íman. E as surpresas irão continuar num romance que mantém um elevado nível de suspense emocional, com uns finais de capítulos inesperados, e repleto de uma preocupação ambiental, temáticas que raramente atravessam os livros que se publicam atualmente. Para não falar do choque literário que provoca a descoberta da razão da solidão em que o protagonista vive, num volte-face bastante original do autor.

A Cova é, decerto, a primeira obra que se destaca das novidades literárias para este ano e a prosa afiada como uma lâmina de Cynan Jones obriga o leitor a defender-se a todo o momento. Principalmente a nível dos sentimentos, matéria-prima que está hoje muito pouco presente nos livros que chegam às mãos dos leitores. A ler, mesmo que o final seja pouco explícito.

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