O museu do mundo todo

Sokurov retoma a sua paixão pelos museus, evocando o Louvre durante o período da ocupação alemã.

Decididamente, para Aleksandr Sokurov, um museu não é um armazém. Nem uma coleção de cromos. Em A Arca Russa (2002), a sua câmara percorria o Hermitage, em São Petersburgo, numa vertigem de continuidade (era um filme feito num único plano, convém recordar) que se ia tornando paradoxalmente descontínua, expondo as memórias, deslumbradas e magoadas, de uma Rússia ainda desconhecedora das convulsões do comunismo.

Agora, em Francofonia, Sokurov vem-nos dizer o que já sabíamos - o Louvre como imensa galáxia de história e histórias -, embora levando-nos a discutir muitas certezas correntes sobre a conservação do património artístico. Será, por isso, irrelevante encaixar Francofonia em qualquer modelo de "documentário" ou "ficção".

Este é o filme em que o próprio Sokurov se coloca em cena, perante o ecrã do seu computador, inquirindo sobre as inusitadas atribulações a que os humanos sujeitam os objetos artísticos. Mais do que isso: a frieza jornalística dos factos evocados não impede que Napoleão "saia" das telas, vagueando pelas salas do Louvre, apontando os quadros e proclamando, com compreensível orgulho, "sou eu".

Em qualquer caso, o cerne da questão está na relação que, durante a ocupação alemã, se estabeleceu entre o diretor do museu e o oficial nazi encarregado de administrar a "cultura" (interpretados, respetivamente, por Louis-Do de Lencquesaing e Benjamin Utzerath). Nessa relação, Sokurov descortina uma cumplicidade tão discreta quanto tácita que, por abençoada perversidade, conseguiu conter o desejo de "exportação" de muitas obras-primas do Louvre, alimentado, em Berlim, por Hitler e Goebbels.

São memórias multifacetadas da Segunda Guerra Mundial que, além do mais, conduzem o cineasta a evocar as feridas da sua pátria e, em particular, a resistência trágica de Leninegrado (aliás, São Petersburgo).

Daí a luminosa moral de Francofonia: um museu não é exatamente um lugar para contemplar a arte do mundo, mas mais uma paisagem viva que, no limite, nos permite ver o mundo todo.

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