Marisa Monte e Carminho: catarse luso-brasileira

Para o espectáculo final desta edição EDP Cool Jazz, Marisa Monte teve a seu lado Carminho para juntas criarem um monstro sentimental de lágrimas atlânticas de alegria e felicidade.

Se Marisa Monte sozinha em palco, já estava a causar furor nos Jardins Marquês Pombal, a presença da convidada Carminho tornou o concerto numa catarse luso-brasileira entre o sorriso de lá (de Marisa Monte) e o drama de cá (de Carminho).

Já tinham sido tocadas sete músicas e o concerto já estava empolgante quando um amontoado de fotógrafos junto ao palco denuncia a vinda de Carminho. Nos momentos das apresentações, as identidades dos dois países ficam logo à superfície, entre o à-vontade brasileiro de Marisa Monte (com aquele jeito natural para contar histórias) e o acanhamento mais nervoso e português de Carminho.

Mal soam as primeiras notas de Dança da Solidão, os temperos sambistas da competentíssima banda de Marisa Monte (quatro músicos e muita batucada) dão margem para uma erupção vinda do hemisfério norte, com Carminho a fazer transparecer o seu canto fadista.

Em Vilarejo, Marisa e Carminho cantam de forma mais sincronizada e apertam a indistinção entre as duas na versão dos aportuguesados Os Argonautas de Caetano Veloso, a tal que invoca os tempos dos descobridores, em que "navegar é preciso, viver não é preciso", já com Luís Guerreiro na guitarra portuguesa. Pelo meio, Marisa Monte fala do andarilho carioca Gentileza que recheava a cidade com os seus escritos, apagados pela prefeitura da cidade, e que o canta, juntamente com Carminho.

Depois, vem o tema de aposta certa Chuva no Mar, o tal que uniu Carminho a Marisa Monte há dois anos, aqui a sobrepor o intimismo entre a doçura de Marisa Monte e o alpinismo emocional à fadista de Carminho. Isto é MPL, Música Popular Lusófona.

Recupera-se as Saudades do Brasil em Portugal de Vinicius de Moraes e volta a eliminar-se a distância de tanto mar entre os dois países quando Marisa Monte e Carminho cantam O Vira mitificado por Ney Matogrosso. Neste vira vira, a guitarra portuguesa de Luís Guerreiro quase que passa por cavaquinho, Carminho enceta uma pequena dança folclórica, enquanto o guitarrista Pedro Baby faz um vira-rock com o seu solo de guitarra.

A noite estava fria nos oeirenses Jardins Marquês Pombal e o público também, sobretudo o das cadeiras. Com figura magra e de lindíssimo vestido escuro e de alças (como é que Marisa Monte não tinha frio!?), a artista carioca mostrou a sua dimensão superior, mesmo quando sem Carminho.

Com uma voz de doçura tão musical, Marisa Monte não foi de economizar êxitos: Depois, Beija Eu e Ainda Bem fizeram-se ouvir, tal como o mais reativo público de pé que se amontoava nas zonas laterais. As canções de rejúbilo pelo amor sucedem-se e mesmo o lamento de Passe em Casa é cantado de forma tão meiga e esperançosa, que perdoamos todos o namorado que não aparece. A Menina Dança e também Marisa Monte, cada vez mais, mesmo que diante da plateia demasiado sentada.

Para os dois encores, Marisa Monte traz Carminho e os seus temas mais populares, Amor I Love You e Velha infância dos Tribalistas (o supergrupo que a ligou a Carlinhos Brown e a Arnaldo Antunes) que o público da zona central finalmente cantou de pé. Marisa Monte, uma querida, brincou com a situação: "Vocês cantam lindo, me estavam escondendo o jogo". O bis de O Vira fechou a belíssima noite transatlântica.

Na primeira parte, Ana Gomes mostrou que o smooth jazz pode ser cantado em português suave. Apoiada por um quarteto equilibrado, Ana Gomes interpretou os temas do seu álbum Balanço, num concerto que foi um tributo ao letrista das músicas que canta, Tozé Brito, várias vezes referenciado e reverenciado e que a cantora fez questão de chamar a palco. O músico e editor aproveitou para uma breve declaração em que enalteceu que aquela iria ser uma noite inteiramente cantada em português. E que tão proveitosa foi.

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