Tânia Carvalho, uma criadora de universos densos e desconcertantes

O trabalho de Tânia Carvalho está em destaque no GUIdance ao mesmo tempo que um dos seus trabalhos se mostra no Maria Matos. Ocasião privilegiada para ver a sua obra coreográfica.

Se dependesse dela, este texto não existia. Nem este nem outro qualquer que, de algum modo, quisesse colocar-se entre a obra dela e o seu espectador, interferir na experiência. Gostava que cada um de nós estivesse completamente despido para receber as criações que obsessiva e meticulosamente inventa, como da primeira vez. "Quando começas ninguém sabe quem tu és, o que fizeste. Eu adorava que vissem as minhas peças sem saberem de quem são. Como numa exposição coletiva é possível ver a obra antes de se saber o nome do autor. Eu preferia que as pessoas não me conhecessem a mim, preferia que vissem só a peça".

Tânia Carvalho (1976) - que se iniciou na dança clássica aos cinco anos e estudou artes plásticas, dança contemporânea e coreografia, e juntou a tudo isto lições de piano e educação musical, apresenta publicamente as suas obras (em que também dança, canta, toca, tanto quanto compõe ou coreografa) vai fazer 20 anos e, sobretudo de há uma década para cá, recebe regularmente prémios, críticas entusiasmadas e convites para criar e apresentar criações tanto em solo português como internacional - está cada vez mais longe de ver esse desejo cumprir-se: a marca que permanece, aquilo que faz dela uma autora, não se confunde. Mais do que mover-se entre várias linguagens - a dança, a música, as artes visuais - Carvalho respira através delas, gerando universos densos que aprendemos a identificar pelo rigor e pela estranheza, entre outros sinais sempre densos e desconcertantes. Ela concede alguns fios condutores: "um gosto pelo antigo - que implica sempre um gosto pelo futuro - e um gosto pelas coisas bonitas. Preciso de limpar a feiura que anda por aí".

Após A Tecedura do Caos (2014), trabalho em que partiu da Odisseia para criar uma espécie de coro para 12 bailarinos, com cortes abruptos nas "vozes" - e cuja digressão internacional inscreveu ainda mais solidamente o seu nome no panorama da dança contemporânea -, e Xylographie (2016) que criou para 18 bailarinos do Ballet da Ópera de Lyon - e permanece por estrear por cá -, Tânia Carvalho regressou à, por assim dizer, música de câmara com Glimpse - 5 Room Puzzle, peça para dois bailarinos - Luís Guerra e Marta Cerqueira - que estreou em Marselha e se apresentou em Paris, no Centre Pompidou, antes de chegar a Lisboa. Com ela, inventou um híbrido entre o desenho, a dança e os poemas ingleses de Pessoa, objeto em que define uma "harmonia contida" e uma "harmonia disparatada" a partir de "duas frases-movimento, uma para cada um dos intérpretes, que se combinam e recombinam sem fim à vista".

Um puzzle confesso que leva longe o caráter obsessivo da sua criação. "Eu adoro esquemas de cabeça", diz, sem explicar, "e este é uma coisa que nunca mais acaba e que não tem solução. Mas eu queria trazer beleza ao mesmo tempo - lá está, porque acho que ela anda a ser destruída - mas as personagens não se dão conta desta beleza, porque cada uma está obcecada com o seu próprio universo". Para responder a esta cegueira a coreógrafa cria - e encarna - um terceiro ser, "o ponto de fuga da peça, o contraponto, uma personagem que pode ir para qualquer sítio".

Um destes lugares pode ser De mim não posso fugir, paciência!, obra em que contracena ao piano com quatro bailarinos, explorando "os movimentos que um pianista deveria aprender para interpretar música". Um trabalho que a põe em jogo como intérprete mas sobretudo como autora. "Sempre quis ser criadora, nunca quis ser intérprete. Nem bailarina eu acho que sou. Gosto de ser bailarina das minhas coisas, nas coisas dos outros sinto-me esquisita. É um bloqueio, talvez. Tal como na música toco e canto sempre à minha maneira. Parece egocêntrico mas não é, é só gostar de criar, inventar as coisas".

De mim não posso fugir, paciência! estreou em 2008 mas regressa agora ao palco do GUIdance pela mão do programador do festival, que destaca o trabalho de Carvalho na edição deste ano: "é uma peça que poderemos considerar icónica do seu repertório e representativa do seu vocabulário". É também a rima que Rui Torrinha quis fazer com a estreia absoluta de um novo solo de Tânia enquanto "desafio da confrontação das obras construídas com o novo". Captado pela Intuição é o resultado desta proposta e da interpelação que a coreógrafa fez a si própria: "o que é isso de querer estar a fazer agora uma peça para mim? É uma espécie de ponto da situação, de perguntar como é que eu estou agora. É uma luta entre o abstrato e o figurativo, tem o meu lado expressionista mas também o movimento muito desenhado. A minha forma de mexer está sempre ali. Lá está, de mim não posso fugir..." - explica Tânia.

"Quando estou a criar para grupos estou a pensar no que vou fazer para cada um - uma frase-movimento para o Luís não é igual a uma para a Marta - mas para mim vou só fazendo e é isso". Não que o trabalho não seja sempre ferozmente solitário. "Não consigo partilhar o ato criativo, trabalhar em parceria. Partilhar, discutir ideias - não consigo. Mas adoro trabalhar em grupo". O negro arranjou maneira de comer as cores em ambas as peças que apresenta no GUIdance - Glimpse, por exemplo, tem tons surpreendentes - mas ela acha graça a essa linha que une uma e outra peça, num "percurso com muitas variantes". "Quando sou eu sozinha é mais negro, mas para mim o negro é cómico. É como se eu quisesse rir do que nos faz mal, para aliviar".

FICHA
Glimpse - 5 Room puzzle
Lisboa, Teatro Maria Matos, hoje, 21h30
Bilhetes: 12euro

Captado pela Intuição
Guimarães, GUIdance, CCVF, Grande auditório, dia 4, 21.30
Bilhetes: 10euro a 3,50euro
Aveiro, Teatro Aveirense, dia 10, 21.30,
Bilhetes: 5euro

De mim não posso fugir, paciência!
Guimarães, GUIdance, Plataforma das Artes, dia 8, 21.30
Bilhetes: 10euro a 3,50euro

Mais Notícias

Outras Notícias GMG