Gravação nomeada para Grammy tem dois portugueses no elenco

Tenor Fernando Guimarães e baixo João Fernandes interpretam três papéis em produção americana da ópera de Claudio Monteverdi

Chama-se Il Ritorno d"Ulisse in Patria, foi escrita em 1639-40 e é uma das três óperas de Claudio Monteverdi (1567-1643) que chegaram na íntegra aos nossos dias. A gravação desta obra (ed. Linn Records) pela orquestra de instrumentos de época norte-americana Boston Baroque (mais antiga formação do género na América), dirigida pelo seu fundador Martin Pearlman, foi recentemente nomeada para um Grammy nas categorias Produção/Engenharia de Som e Ópera.

A gravação, que foi precedida de récitas ao vivo, integra no seu elenco dois cantores portugueses da nova geração: o tenor Fernando Guimarães e o baixo João Fernandes. Fernando canta o papel titular (foi a sua estreia americana), ao passo que João, para quem este já foi o nono palco que pisou nos EUA, se dividiu por dois papéis: o Tempo (no prólogo alegórico) e o deus Neptuno, na ação propriamente dita.

Veja os dois cantores atuarem juntos em La Spinalba:

Cantores internacionais

Fernando e João têm intensa carreira internacional e são chamados cada vez com maior frequência para cantar partes principais no repertório lírico e de concerto dos séculos XVII e XVIII. Fernando soube da nomeação "através do Facebook". Para este Ulisse, conta, "eles contactaram o meu agente expressamente para me contratar para o papel: queriam mesmo que fosse eu!", algo que atribui à "reputação forte que já tenho neste repertório". Curioso é que "foi o meu primeiro Ulisses! Normalmente, é escolhido um tenor mais maduro, ou um barítono, sendo raro um tenor jovem como eu fazê-lo". Mas, apesar do "respeito inicial ao papel", descontraiu-se e "correu tudo muito bem", tanto que já diz, agora, ser "um papel ótimo para mim".

Já João soube a novidade "por um e-mail geral enviado pela Boston Baroque". No seu caso, foi "a minha agente, que trabalha amiúde com os Boston, que soube que procuravam um baixo com voz para o Neptuno", um papel que "William Christie me oferecera há alguns anos, mas que recusei por não me achar ainda com gabarito para o fazer". Como Fernando, a fama precedeu-o, pois "nem precisei fazer audição" - e mais: "Quando souberam que eu ia estar em Boston [em abril de 2014], o Boston Early Music Festival convidou-me logo para cantar Jesus na Paixão de Mateus, de Bach."

Razões do sucesso

Fernando fala de "um elenco muito forte, uma produção muito boa e válida e engenheiros de som ótimos" como razões para estas nomeações. Mas também o enquadramento ajudou a que tudo corresse bem: "Uma organização de grande profissionalismo e de um cuidado enorme do início ao fim. Foi um dos melhores projetos que já fiz na minha vida", reconhece.

No mesmo diapasão vão as impressões de João: "Guardo uma impressão muito agradável de tudo", diz, acrescentando que o impressiona sobretudo "o entusiasmo quase juvenil de todos pelo projeto que defendem, que é algo que encontro sempre que trabalho do outro lado do Atlântico". E dos engenheiros de som, "de uma competência e de um carinho pelo pormenor largamente acima da média".

A gravação decorreu "numa sala esplêndida, com ótima acústica" (João), mas foi precedida de "duas récitas semiencenadas, no Jordan Hall [Boston], que foram um sucesso enorme e tiveram ótimas críticas" (Fernando), de tal modo que correram "ainda melhor do que as sessões de gravação".

João já tem a gravação, mas, confessa, "espero sempre um ano ou mais antes de me ouvir. Sou o meu mais implacável crítico". No seu caso, esta foi "a 16.ª das 18 gravações a que já estou associado". A mais recente é a Agrippina de Händel, "com a fabulosa orquestra do Festival de Göttingen, com o maestro Laurence Cummings, uma gravação ao vivo", em que João interpreta o papel do imperador Claudio - interpreta ou "põe no bolso"? É que, conta, "causei um estrondo local e na imprensa internacional, o que gerou muitos convites para outros papéis e intenções de convite que muito me honram". No caso de Fernando, o seu Ulisses "americano" originou "um convite do Festival de Spoleto [um dos melhores dos EUA] para participar na estreia moderna da ópera Veremonda, de Cavalli, mas por questões de agenda tive de recusar, infelizmente". O seu 2016 será "muito cheio na Europa", não voltando a Portugal senão "em novembro de 2016, à Gulbenkian".

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