Férias no paraíso, com um inferno ali mesmo ao lado

A ópera Bosch Beach, de Vasco Mendonça, parte do pintor flamengo Hieronymus Bosch para uma alegoria sobre a culpa e as suas ambiguidades. No Teatro Maria Matos, amanhã e sexta, sempre às 21.30

O que tem a pintura de Hieronymus Bosch a ver com três banhistas europeus num resort mediterrânico? À primeira vista, nada, mas a nossa perceção poderá alterar-se se localizarmos a ação: ilha de Lampedusa. Foi destas premissas tão distintas que nasceu Bosch Beach, ópera de Vasco Mendonça que sobe amanhã e sexta (sempre às 21.30) ao palco do Maria Matos.
"A encomenda da Fundação Bosch propunha uma reflexão sobre o trabalho do pintor e logo aí interessaram-nos os temas da culpa e da expiação. Quando depois alguém trouxe as fotos de Lampedusa [estava-se em 2014], a chocante confluência, ali, de dois universos tão radicalmente distintos pareceu-nos a ponte ideal onde situar a questão da culpa e das ambiguidades que a rodeiam", conta-nos o compositor.
Diante de um libreto [Kris Verdonck] "em episódios ou vinhetas, sem fio narrativo nem cronológico, escrito num registo mordaz, sarcástico, contundente mesmo, pela vulgaridade da linguagem que não rejeita o recurso à obscenidade", Vasco decidiu "criar uma estrutura por números separados, relacionados com arquétipos da ópera, espelhando assim a forma-mosaico do libreto".
Mas depois valeu-se "da faculdade fantástica da música para ir além do texto, que pode no limite dizer o contrário do que é dito pelo texto". Forjou assim "um percurso amiúde não colinear com o texto", espécie de "serpente" em relação a este. Na sua opinião, "estar em constante sarcasmo e causticidade seria um alçapão e seria superficial", até porque, advoga, "não se deve ter medo da expressão nem do lirismo". E é com essas "armas" que Vasco intentou "mecanismos, através da escrita vocal e do tratamento harmónico, capazes de gerar empatia entre nós, espectadores, e aquelas personagens que liminarmente rotularíamos de monstruosas". Criar "elementos de reconhecimento e perceber ali comportamentos que podiam ser os nossos".
Intuito é fugir à "tentação das explicações simples para questões complexas" e "não deixar que saiamos tranquilos no final, suscitar questões, deixar perguntas no ar e levar o "fardo" connosco para casa".
Neste cenário, o Outro [os refugiados] é o grande ausente: "Só os apercebemos indiretamente sob a forma de cadáveres". É antes na música que eles vivem: "criei uma oposição de carácteres: o lado histriónico e loquaz do resort e uma certa dimensão austera, ritualística e sagrada do que os rodeia", referindo-se ao "mar de morte".
Vasco reconhece os perigos de tratar uma questão tópica tão candente: "há o risco de circunscrever a apreciação da peça ao contexto e à nossa avaliação ética da posição do artista". Daí que lhe agrade que esta "seja só uma dimensão" da sua obra, "permitindo que ela sobreviva para além disso". Prefere vê-la como "alegoria do horror [da indiferença], capaz de gerar uma reflexão sobre a relação entre a nossa culpa íntima e a culpa coletiva" que carregamos enquanto cidadãos do mundo rico que também prospera à custa do "outro" mundo. No fundo, explica, "extrapolar a situação e aquela questão específica para algo mais abrangente, para conceitos universais".
Tudo servido por uma música na qual identifica três novidades: "o pastiche, um conjunto de danças que remetem para o universo da cultura pop e, na exploração instrumental, o recurso a instrumentos associados a outras linguagens, como guitarra e baixo elétricos, melódica, slide whistle, didgeridoo, clarinete-baixo...". Refere-se, a propósito, a "criar um efeito de "sujidade", de pôr areia no mecanismo". Ainda e sempre a intenção de subverter, de contrariar as aparências - se não, como poderia Bosch "casar" com praia?

Mais Notícias

Outras Notícias GMG