Falta-lhes o ar, mas eles têm coisas urgentes para nos dizer

O Que Fazer daqui para Trás abre o palco a pessoas exaustas e marca o regresso de João Fiadeiro

Carolina chega a correr, vem a transpirar, ofegante. Viu uma mulher "com cara de vazia", diz, e passa a descrever o encontro entre ambas. Quando se vai embora, a história destas duas mulheres - a que acabou de sair e a que nunca chegou a entrar - fica no palco, onde antes só existia um microfone. Márcia chega a correr, vem a transpirar, ofegante. Diz que encontrou pessoas cheias de pedras nos sapatos.

"Pessoas que quando chegam a casa descalçam os sapatos e tiram uma a uma, as pedras: a pedra do que temo, a pedra do que já vivi, a pedra... Depois, de manhã, voltam a meter as pedras dentro dos sapatos e saem para a rua." Ela sai, talvez para a rua também. Iván entra a correr, vem a transpirar, ofegante. Fala do corpo, o corpo dele, de como o que sente agora se parece com o que já sentiu antes. Interroga-se. Daniel entra a correr - quase atropelando Iván, que sai. Vem a transpirar, ofegante, faz uma pergunta, talvez para si próprio, talvez para nós espectadores, talvez para todos. A pergunta é: "se eu me sinto livre?" Sai.

Adaline chega a correr, vem a transpirar, ofegante, conta uma lenda filipina de pessoas que sobem às palmeiras e nunca mais são vistas. Diz que aqui essa espécie de triângulo das Bermudas acontece ao nível do chão, que se olharmos bem encontramos vestígios de pessoas que ali estiveram, beatas esquecidas, coisas. Durante uma hora vai ser assim, um corrupio de gente, uma correria sem ordem atribuída, às vezes uns atropelos, um entra e sai de histórias, pensamentos, interrogações, umas vezes só esboçadas, outras desfiadas com pormenor, as roupas cada vez mais coladas ao corpo, a necessidade de respirar a lutar contra a vontade de falar. Mas esta a ganhar, quase sempre.

Não se destrói um artista

O que fazer daqui para trás, a peça com que João Fiadeiro quebra oito anos de silêncio coreográfico, parte de uma questão simples: será que é possível começar um espetáculo a partir do fim? "E para nós o fim é a exaustão", diz ele. "É assim que isto começa, com pessoas que chegam ao palco exaustas - e com sinais muito claros dessa exaustão, sinais que o microfone amplifica - e que querem dizer qualquer coisa."

Depois foi preciso descobrir a melhor forma de atingir essa exaustão e deixar que ela afetasse o que cada um dos cinco cocriadores e performers tinha para dizer. "É um tipo de trabalho que não se consegue ensaiar, só se consegue fazer. O que existe aqui é imprevisto - no sentido em que não se pode antecipar - mas está contido num território dramatúrgico que não nos deixa fugir das questões que nos interessam. É uma forma de permitir que os performers se apropriem do trabalho e, apesar de eu andar há muito tempo a desenvencilhar-me da figura de mestre-de-cerimónias, é também uma mudança de paradigma para mim", diz Fiadeiro.

Ele que tinha, desde I am Here (2007), suspendido a atividade como autor para se concentrar no método de Composição em Tempo Real - enquanto "instrumento de investigação e prática de decisão, representação e colaboração" - "e não ia voltar nunca mais", voltou. "Percebi que é na arte e não na ciência e não na vida que eu consigo manter a questão aberta."

A antropóloga Fernanda Eugénio e os performers Carolina Campos e Daniel Pizamiglio foram cruciais neste regresso, diz, "ajudaram-me a fazer um mapa dos meus afetos". Revisitou criações, territórios partilhados, circunscreveu questões.

O que fazer daqui para trás abre o palco a pessoas exaustas, que não se calam. Marca o regresso de João Fiadeiro, no ano em que a companhia e o ateliê REAL deixaram de receber apoio financeiro do Estado. Como ele diz, num manifesto com o mesmo nome da peça, "não se destrói um artista. O que se destrói é a própria ideia de comunidade, porque estão a mexer na fundação do viver juntos: uma rede delicada e sensível de relações, sinergias e dinâmicas de encontro, que dão corpo àquilo que chamamos de "estar vivos".

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