Eu tive uma plantação de tomate em África

Mala Voadora apresenta "Moçambique", um espetáculo que parte da biografia do ator e encenador Jorge Andrade. No Teatro Maria Matos, em Lisboa.

Estes são os factos. O ator e encenador Jorge Andrade nasceu em Moçambique. Os pais tinham ido para lá muito novos, lá se conheceram, lá casaram. Quando regressaram a Portugal, depois do 25 de abril, trouxeram os dois filhos, entre eles Jorge, então com quatro anos. "Em Moçambique ficaram os meus tios e dois primos. Em 1983, um dos meus primos morreu com malária e seis meses depois o outro teve um desastre de mota e também morreu. Em 1984, os meus tios vieram a Portugal e lembro-me de ouvir a minha tia Eulália e a minha mãe a falarem na cozinha. A minha tia estava muito triste e perguntou à minha mãe se ela não lhe podia dar um dos filhos para lhe fazer companhia. Eu fiquei na espetativa a ver o que a minha mãe ia responder. E ela disse: 'Eu até te dava o Jorginho mas não consigo viver sem ele'. Fiquei muito feliz. Em 2010, eu regressei a Moçambique, em trabalho. E o meu tio levou-me a ver aos campos cultivados e a fábrica de concentrado de tomate dele e tentou convencer-me a ficar lá e trabalhar com ele. Eu dizia que não percebia nada de tomate, mas ele insistia imenso. E mais uma vez tive oportunidade de viver em Moçambique e não fiquei. Em 2014 o meu tio foi assassinado e a minha tia ficou sozinha."

Estes são os factos, tal como Jorge Andrade os recorda. A partir daqui nasceu o novo espetáculo da Mala Voadora, Moçambique, que se estreou na semana passada no Porto e agora chega ao Teatro Maria Matos, em Lisboa, onde será apresentado a partir de amanhã e até terça-feira (dia 27). O que Jorge Andrade faz é um exercício de suposições. "E se eu em 1984 tivesse voltado para Moçambique com a minha tia e ficasse a tomar conta do negócio do tomate? E começamos a contar essa história."

O que aconteceria se, em vez de ator, Jorge se tivesse tornado um empresário, com quatro mil hectares de plantações de tomate e um negócio de concentrado que se iria expandir, aproveitando o facto de a guerra no país estar quase a terminar e de Moçambique já não estar tão alinhado com o bloco soviético. As negociações que teria de fazer com os elementos do governo, os subornos que teria de pagar, onde iria arranjar empregados, como iria sobreviver às intempéries e aos solavancos da economia internacional?

O jogo de faz-de-conta é assumido pelos atores: Jorge Andrade a fazer dele próprio e mais um grupo de intérpretes de origens diversas, como Bruno Huca, Isabél Zuaa, Jani Zhao, Matamba Jaquim, Tânia Alves e Weleket Bungué. Juntaram-se todos para contar a história de Jorge, fizeram a devida pesquisa histórica (as referências históricas, políticas, económicas e até climatéricas coincidem com a realidade) mas isso não os impede de colocar questões e levantar dúvidas. Por isso, a história inicial poderá ter que sofrer alterações, se calhar é melhor começar tudo de novo. Então e se a tia Eulália tivesse vendido as plantações de tomate e fosse viver para uma ilha paradisíaca? E se?

Moçambique é "quase uma farsa" e com "um humor muito ácido", como é costume na Mala Voadora, explica Jorge Andrade. Onde os clichés de África (as roupas, as palmeiras, as danças) estão ao serviço do espetáculo. Realidade e ficção misturam-se. O palco é a ilha. A ilha é um palco. Jorge já não é Jorge. "Acontece tudo muito depressa e nós representamos e cantamos e dançamos", diz o encenador. "O que é que se pode fazer numa hora e meia? Podíamos tentar mudar a história do país. Claro que isso não é possível, por mais que estejamos a inventar a realidade é mais forte do que a nossa capacidade de inventar. Por isso, aquilo no fundo é uma alienação. É a ilha. Mais vale irmos todos para a ilha, apanhar banhos de sol e comer marisco. Porque na ilha, como no teatro, vale tudo."

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