Encaixar no mundo ou recriá-lo? Siga as pistas para encontrar a resposta

O Grande Livro dos Pequenos Detalhes, que hoje estreia, foi criada por um grupo de autores-atores portugueses e brasileiros

"Uma rapariga no metro, a chorar. Rasga uma carta, atira-a para o chão e sai na paragem seguinte", propõe uma das funcionárias. "Eu não acho isso bom", diz a Chefe. "Vamos pensar maior". "Um vulcão entra em erupção e cria uma ilha a sul do Rio", sugere outro funcionário. "Acho ótimo", responde a Chefe, "mas não temos orçamento para isso".

A vida não é fácil no Departamento de Clarificações e Distrações, erguido paredes meias com a Rádio Cidade Baía, que tem uma locutora que um dia decide inventar informações de trânsito, transtornando a vida dos seus ouvintes. Cabem ambos n"O Grande Livro dos Pequenos Detalhes, onde há personagens que todos os dias tentam "encaixar na porra do mundo" e outras que querem recriar esse mundo, propondo novas realidades, "micro-distrações" para afastar as pessoas dos seus problemas quotidianos. Serão uma família ou apenas colegas de trabalho? Trabalham para o bem comum ou são agentes do Mal?

"A peça tem imensas janelas de perceção", responde Thiare Maia Amaral, sem, de facto, responder. "Há gente que pensa que são duas peças completamente diferentes, outras que encontram pistas numa para a outra. É tudo muito solto mesmo". A peça dá trabalho ao espetador, propõe-lhe pistas à distância, incita-o a inventar sentidos onde se calhar eles nunca existiram.

"Tem a ver com a vontade que cada um tem de criar imagens para si próprio, a partir daqui", diz Cláudia Gaiolas. "Essa peça desnuda aquilo a que damos importância na vida", acrescenta Renato Linhares.

Um vaudeville melancólico

O Grande Livro dos Pequenos Detalhes atravessou o Atlântico para se dar a ler no Teatro Maria Matos - com o público no palco, mesmo ali à beira, tão diferente da "caixinha" que é o Oi Futuro Flamengo, o teatro do Rio de Janeiro onde ela estreou no verão passado (e esteve seis semanas non-stop em exibição) - e a reinvenção deste segundo volume está em plena marcha enquanto esta conversa decorre. "A gente nem sabe ainda como isso vai mexer na peça", diz Renato que a viu pela primeira vez da plateia, com Michel Blois a fazer o papel que agora é seu.

E dizer isto já é dizer pouco, porque há ali vidas que não cabem num papel só. "Sinto sempre que tenho que correr atrás deste espetáculo", diz Paula Diogo, "começar de novo, re-fazer, re-descobrir". E Cláudia Gaiolas concorda: "Nada é explicado, tudo é lançado. É um espetáculo que me deixa instável, e eu quero fazer coisas com isso". E Renato completa: "A peça é muito louca, tem um grande sentido de liberdade. É um vaudeville melancólico mas com muito humor".

O Grande Livro dos Pequenos Detalhes é uma criação de grupo - do quarteto original só Michel Blois não se apresenta em Portugal -, um bando de autores-atores luso-brasileiro a que se juntou o dramaturgo Alexander Kelly, do coletivo inglês Third Angel.

"Sabíamos que queríamos trabalhar juntos, ainda antes de sabermos sobre o quê", explica Paula Diogo. A vontade vem de 2009 e do projeto Estúdios, uma ideia de Tiago Rodrigues que reuniu, no Maria Matos, três criadores portugueses e quatro brasileiros que puseram de pé três peças em três semanas.

Quando os calendários e orçamentos se alinharam encontraram-se no Rio de Janeiro, Alexander Kelly com o desejo de escrever uma história de detetives, Paula Diogo com um livro de aventuras em que o herói é um miúdo autista que vê o mundo de uma maneira especial, todos com histórias e memórias de policiais e séries de detetives dos anos 70.

"Queríamos muito contar uma história que fosse divertida", conta Cláudia Gaiolas. Já para não falar da tremenda metáfora que é contá-la num palco, para espetadores. "Se só nos focarmos numa coisa, o que é que muda da nossa perceção do mundo?"

Mais Notícias

Outras Notícias GMG