Duas horas para abater sete barcos dentro do museu

Ação criada pelo artista mexicano Héctor Zamora foi levada a cabo esta quarta-feira por 30 trabalhadores. Embarcações acabaram no chão.

"Este trabalho, feito em Portugal, tem um significado especial", segundo Manuel João Vieira, artista plástico, uma das pessoas que assistiu esta quarta-feira à destruição de sete embarcações de pesca artesanal na sala oval do MAAT - Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia, em Lisboa, como a planeou o artista mexicano Héctor Zamora. "Fizemos isto aos nossos barcos quando entrámos na Comunidade Europeia há 30 anos, por isso foi tão difícil encontrar estes barcos para abater", nota.

O som ecoava, forte, pelo edifício. Batidas ritmadas dos martelos, marretas e pés-de-cabra com os quais 30 trabalhadores negros, vestidos com macacos cinzentos novos e capacetes brancos imaculados, abateram os barcos, durante cerca de duas horas. Às 19.45, deram por concluído o trabalho e recolheram o aplauso do público que assistiu à ação, batizada de Ordem e Progresso.

Do lado de fora, como o público, Héctor Zamora, a viver em Lisboa há um ano, assistiu ao abate programado dos barcos. Três lanchas, as mais pequenas embarcações do conjunto, foram ao chão em cerca de 30 minutos. O artista contou ao DN que disse aos artistas para já podiam deixar a sala oval, mas que eles continuaram. "Estão a divertir-se, a adrenalina é muito forte".

Antes de começar, Héctor Zamora deu instruções aos operários sobre a forma de destruir os barcos. "Explicou que este trabalho é arte. Nós, os emigrantes viemos para trabalhar, o país aproveita o que fizermos e nós melhoramos as nossas condições de vida", explicou António Sanca, da Guiné-Bissau. "Pensei que vinha destruir um barco e fabricar outro", contou outro trabalhador, Manuel Abreu. Os 30 homens foram contratados a uma empresa de trabalho temporário.

Manuel João Vieira salientou o quê de "teatral" da ação programada pelo artista mexicano. "Acho mais bonitas as ruínas do que os farrapos embora os farrapos sejam bonitos".

"Muito eficaz". É assim que Leonor Nazaré, curadora do Museu Gulbenkian, que estava na audiência, viu a acção de Héctor Zamora. "Conseguiu a manobra desejada no tempo certo", considera. "É como saber aplicar o óleo na tela. É preciso que as técnicas e os procedimentos estejam adaptados à matriz conceptual do trabalho. É preciso pensar em tudo ao detalhe, tem de pensar muito seriamente". Chama a atenção, por exemplo, para os cheiros que a ação desprendeu. "Cheirava a madeira e agora [no final] cheirava a petróleo, e a performance é isso, são todas as componentes sensoriais" . E o som. "Havia um batimento, quase uma música".

Esta foi a terceira vez que Héctor Zamora, nascido em 1974, levou a cabo esta obra. A primeira vez foi em Lima, Peru, em 2012. Usou apenas um barco, destruído por oito trabalhadores no centro da cidade durante 12 dias. A ação começou com um protesto contra o abate de barcos de pesa artesanal depois do governo assinar um acordo de pesca industrial com os EUA e o Japão, um caso semelhante ao que acontece em Portugal com a União Europeia.

Há um ano, em plena crise de refugiados a chegarem à Europa em barcos de borracha, atravessando o Mediterrâneo, repetiu a ação, no Palais de Tokio, em Paris. Foi a primeira vez que usou vários barcos, como em Lisboa, onde também quis lembrar este aspeto. "A metáfora é poderosa, relacionada com os desatres migratórios e é por isso também que a equipa é toda negra".

A performance foi gravada e até 24 de abril o som será a banda sonora que acompanha a obra -- a escultura feita de destroços.

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