"Dói que se farta? Sim. É improvável? É. Dá-me gozo? Imenso."

Estreia no dia em que o coreógrafo completa 60 anos, e há 30 que não o víamos dançar. Vespa é um solo de Rui Horta para si próprio e para cada um de nós.

Um coreógrafo com mais de sessenta criações na bagagem e seis décadas de vida prestes a celebrarem-se decide apresentar-se em palco a solo, dançar agora ele e não os seus intérpretes, coisa que vai para 30 anos não fazia. Chama-se Rui Horta e sobre a decisão que amanhã se materializa no palco grande do Centro Cultural Vila Flor, pergunta e responde: "Dói que se farta? Sim. É improvável? É. Dá-me gozo? Imenso."

Subtraindo o dramatismo conjuntural da proposta, Vespa, a peça, é o corolário natural de uma série de coisas, a começar pelo desejo: "Eu sempre tive uma certa vontade de ir ao palco. Mas a minha vida é complicada. Entre os meus filhos, a minha criação e o Espaço do Tempo não havia energia para fazer algo para mim. Tentei em 2010 mas fraturei o menisco dois meses antes da estreia e o Anton (Skrzypiciel, alter ego de Rui no palco e bailarino principal da Soap, a Companhia que o coreógrafo fundou nos anos 90) fez a obra muito melhor do que eu". Local Geographic era até agora a mais biográfica das suas peças, e também uma declaração de amor à região alentejana onde se instalou em 2000, no virar do milénio - depois de Nova Iorque, Lisboa, Munique e uma enorme atividade internacional - criando um Centro de Residências Artísticas em Montemor-o-Novo (O Espaço do Tempo).

Antes de começar a dançar no Ballet Gulbenkian, aos 17 anos, Rui foi atleta de competição e a disciplina rege-lhe a vida desde sempre - "as pessoas do corpo têm de ter uma disciplina gigantesca, é uma coisa que eu tenho em mim com tem qualquer bailarino ou coreógrafo" - bem como desejo de empurrar os limites. Mas se procurar caminhos com o corpo e no corpo é algo que nunca lhe foi estranho, a realidade dos 60 anos de vida também não: "Esta pujança de corpo que eu tenho - trabalho com os artistas nas minhas criações e sou um tipo muito físico - não vai durar sempre. Hoje o desconforto é importante e sei que vai continuar a ser assim." Vespa é também a brutalidade da confrontação destes limites em cima de um palco, e a forma como ela faz parte da própria natureza do trabalho do coreógrafo. "É um desafio a mim mesmo, e tem tudo a ver com a maneira como eu vivo a minha vida: ou é ou não é, num extremo ou noutro. Só há criação se houver um raio, se houver lume, se houver dor, se houver fogo - é aquilo que eu exijo aos outros, não vou exigir menos de mim. Quando trabalhas sempre na fronteira da experimentação e nunca aceitas a receita - a tua receita é não teres receita, o teu projeto é nunca deixares que aquilo se torne um sedimento em ti - estás sempre a começar do zero, que é a única forma de seres um artista contemporâneo. É estares sempre no fio da navalha - pode cair para um lado ou para o outro e podes cortar-te sempre - e isso passa a ser um jogo até ao último dia em que sopras, em que os teus pulmões se enchem de ar. Porque é a única maneira segundo a qual aceitas viver a tua vida".

Entre os sinais de criações anteriores que volta a trazer a jogo, as arquiteturas sonoras de Tiago Cerqueira e o corpo de Rui Horta, Vespa é uma questão do criador consigo próprio e, ao mesmo tempo, universal, tanto na forma como se põe em causa como no reconhecimento de inquietações que nos assaltam a todos. "Há coisas que temos dentro da cabeça, como um zumbido a roer o pensamento", diz Horta na peça. E fora dela: "Este inseto são as coisas não-ditas, as coisas que te ditam. Todos temos uma vespa dentro da cabeça, e ela é politicamente incorreta, diz as coisas mais impróprias, aponta aquilo que não consegues fazer nem no espaço de um dia nem no espaço de uma vida, e tudo isto enche o teu cérebro por dentro e não te deixa repousar". Este trabalho é também sobre essa busca impossível da serenidade através da criação, um processo tão intimamente pessoal como instigador e revelador do coletivo. "Tem uma força enorme, a irrequietude do ser humano, e não é só a chave da felicidade interior de cada um de nós mas também a chave da história da humanidade. A história da humanidade não é encontrar respostas, é pôr questões, constantemente. O ser humano tem um extraordinário património de curiosidade ao longo do seu percurso civilizacional, e a ciência e a arte estão de mãos dadas ao longo dessa história, são elas que abrem o caminho no escuro. Se há coisa que me toca é o facto de a cultura poder dar distanciamento crítico às pessoas, fazê-las descolar do seu quotidiano para olharem o seu universo e estabelecerem relações de mais qualidade com o outro. Eu acho que só há verdadeira democracia num país culto".

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