Das instituições de Wiseman aos concertos de Ferrara

Programação não esquece Frederick Wiseman e Abel Ferrara: dois olhares made in USA celebrando a energia do documentário

Será, por certo, um dos momentos especiais desta edição do Doclisboa: a passagem do mais recente filme do americano Frederick Wiseman, Ex Libris - The New York Public Library (São Jorge: dia 19, 22.00; dia 23, 16.30). Continuando a desenvolver a sua longa antologia de retratos das mais diversas instituições, o veterano Wiseman (87 anos, com uma notável filmografia iniciada há meio século) debruça-se agora sobre a Biblioteca Pública de Nova Iorque, depois de ter retratado a National Gallery, de Londres, em 2014 (National Gallery é o seu título mais recente com lançamento comercial em Portugal).

Wiseman é um autor que sempre nos ajudou a contrariar dois clichés sobre a pluralidade do cinema made in USA: primeiro, o de que esse cinema não passa de um banal produto da gente malévola de Hollywood; segundo, o que insiste em ver nos independentes (como Wiseman, justamente) uma graça divina que nos dispensa de conhecer a produção dos grandes estúdios. De facto, o seu trabalho dispensa qualquer maniqueísmo ideológico do género: a sua obra paciente e fulgurante decorre, tão-só, da fidelidade ao mais antigo axioma documental. A saber: olhar o mundo à sua volta.

Por isso mesmo, em paralelo, talvez faça sentido destacar outra presença americana, Abel Ferrara, na programação do festival. Depois do trágico Pasolini (2014), Ferrara assinou o singelo e contagiante Alive in France (cinema Ideal: dia 21, 00.00; dia 30, 22.00). Trata-se de uma espécie de road movie familiar, centrado numa retrospetiva cinematográfica e musical da obra de Ferrara em França, incluindo alguns concertos com a participação do próprio. Escusado será dizer que o espírito intimista e confessional de Ferrara pouco ou nada tem que ver com o didatismo descritivo inerente à atitude global de Wiseman. Seja como for, ambos nos ensinam a respeitar a vida em estado nascente, antes que qualquer vírus ideológico promova a sua triste formatação.

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