Dançar: para desabafar, para absorver, para mudar o mundo

O Limpo e o Sujo, nova criação de Vera Mantero é uma proposta coreográfica para a vida e começa por uma ecologia pessoal

Há três corpos a organizarem-se e a desorganizarem-se diante de nós. Esgravatam, contorcem-se, correm desenfreados sem ultrapassar o sítio onde estão, tiram do corpo coisas, energias, poeiras, sustêm outras - a respiração, as palavras, os pensamentos? Às vezes parecem ser faces diversas de um mesmo ser; noutras, indivíduos com cabeça, tronco e membros, ocupados com o seu nariz e o seu sexo. Em O Limpo e o Sujo, Vera Mantero, Volmir Cordeiro e Elizabete Francisca criam uma ecologia de si próprios que é um trabalho coreográfico, uma dança.

"Partimos de um território que tem que ver com práticas de nós próprios, das nossas subjetividades e da nossa relação com os outros, em busca de um entrosar selvagem e organizado consigo próprio e com o espaço e o tempo. É uma coisa muito coreográfica - algo que não fazia há muito tempo - e que é muito misteriosa, com leis que lhe são muito próprias", começa por dizer Mantero. "É dançar para desabafar, dançar para expelir, dançar para absorver. Elencar o que passa, expor o que está tramado dentro de nós, nossas potências, nossas contradições. Estamos lidando com as forças que nos habitam, com as coisas que nos atravessam", oferece Cordeiro. E Elisabete Francisca remata: "Somos uma espécie de tubo, nem limpo nem sujo, para tudo isso que precisamos de organizar. E nada disto vai lá com paninhos quentes".

Um céu elétrico paira sobre as cabeças dos performers, seres atravessados por curto-circuitos, fios condutores de correntes alternadas a que o artista plástico João Ferro respondeu na cenografia. Tudo se passa no retângulo que estabelece um dentro e um fora no palco - buraco negro e piscina, tela e moldura, zona limpa e zona suja - e que os performers comprometem e ultrapassam, umas vezes para o lado do público, outras para o do músico João Bento, à direita em cena. "O som é uma espécie de quarto corpo em palco, feito de materiais que já existem, de gravações manuseadas ao vivo, e que acompanha, potencia e choca com os corpos dos performers, que também fazem som", explicita o responsável pela criação musical da peça.

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