Christiane Jatahy: teatro para construir pontes e rasgar fronteiras

Foi finalmente divulgado o programa da bienal Artista na Cidade 2018, este ano dedicada à criadora brasileira.

A encenadora brasileira Christiane Jatahy, apresentada ontem à noite, em Lisboa, como Artista na Cidade 2018, diz que o seu trabalho visa "construir pontes e esgarçar [rasgar] fronteiras", e fazer com que estas fiquem cada vez mais ténues e invisíveis."Incluindo as fronteiras entre o teatro e o real".

Na apresentação do programa da bienal, Christiane Jatahy afirmou que o teatro é "sempre sobre o contemporâneo", sobre o presente, para "acertar no alvo" e entrar na essência da obra. "Para mim, o teatro é sempre sobre o contemporâneo. Porque o espectador está no momento contemporâneo", disse à agência Lusa. Assim, apesar de gostar muito de trabalhar sobre textos clássicos, no seu trabalho, qualquer obra do passado "é sempre vista [a partir] do momento presente". "Então o contemporâneo tem de estar nela e isso não quer dizer que estou saindo dela para construir alguma coisa, mas ao contrário".

"Dou sempre o exemplo do estilingue [fisga]: é como puxar para fora, para esticar, para, na verdade, acertar no alvo", sustentou. Por isso, Christiane Jatahy, nascida no Rio de Janeiro em 1968, sublinha que "puxa pelo momento presente, para entrar na essência da obra". Assim vê melhor o real, argumenta a encenadora e realizadora brasileira, que faz de cada produção um acontecimento multidisciplinar, entre a ficção e a realidade. "É mesmo 'puxar' pelo momento presente para entrar na essência da obra", acrescenta, sublinhando que, quando escolhe uma obra, é porque acha "que, de alguma maneira, ela se reflete no momento presente".

Jatahy sucede ao bailarino e coreógrafo congolês Faustin Linyekula, Artista na Cidade de Lisboa em 2016. O dramaturgo e encenador britânico Tim Etchells, em 2014, e a coreógrafa belga Anne Teresa de Keersmaeker, em 2012, foram os anteriores convidados da bienal que junta diferentes palcos e instituições da cidade.

Uma Odisseia contemporânea

Christane Jatahy é artista associada do Théâtre Nacional Wallonie-Bruxelles e do Le CentQuatre e Odéon Théâtre, em Paris, onde estreará Ítaca - Nossa odisseia I, no dia 16 (e que apresentará no S. Luiz, de 7 a 11 de junho). Esta será a primeira parte de um díptico, inspirado na Odisseia, de Homero, que vai prosseguir em 2019, com um projeto sobre viagens, revelou Christiane Jatahy à agência Lusa. É um projeto - disse - em que irá documentar "as verdadeiras odisseias, as verdadeiras travessias, levando a ficção para essas travessias diárias [de imigrantes e refugiados], e depois documentar a obra". Para elaborar a segunda parte do díptico, a criadora irá trabalhar sobre as viagens que se fazem "nos nossos dias em África, na Europa, no Brasil e nas suas fronteiras, assim como em toda a linha do Mediterrâneo".

Para a construção desta primeira parte do díptico a continuar no próximo ano, a artista entrevistou refugiados e improvisou com os atores, antes de escrever o texto final, transfigurando as faces de Penélope e de Ulisses, de Homero, em diferentes personagens. Um processo de criação que expõe no livro Fronteiras invisíveis: diálogos para a criação da floresta que anda, livro que lançará em 19 de maio, no Teatro Nacional D. Maria II.

Entre a ficção e realidade

No trabalho de Christiane Jatahy, que em 2016 abriu o Festival Alkantara, no S. Luiz, com E se elas fossem para Moscou, a partir de As três irmãs, de Tchekov (numa apresentação em que coube o protesto pela destituição da ex-Presidente brasileira Dilma Rousseff), é fundamental a escolha do texto de que parte o seu trabalho. E parte muitas vezes de textos clássicos e universais, para os "reinterpretar" à luz do contemporâneo, indica. "Quando penso um projeto, não é mesmo só sobre a abordagem de um texto, é também sobre como esse texto - e porque é esse texto - está inserido hoje, para mim, [na atualidade], e que relação [tenho com ele]", afirmou.

"Eu fundamento a minha pesquisa na relação com esse texto", argumenta, "porque cada projeto tem a sua característica, evidentemente, mas existem algumas questões que vêm antes de tudo, sustenta. "Não conta apenas o próprio material dramatúrgico, mas sim saber como é que ele se vai desdobrar num documentário ou numa pesquisa paralela", defende.

"Quando decidi que ia fazer o Se elas fossem para Moscou, o que me interessava era partir da realidade, ou seja, olhar para fora, olhar para o mundo e trazer esse mundo para dentro da ficção", disse. "Mas também pode acontecer o contrário e levar a ficção para a realidade", admite. E esses dois ângulos são, nas suas palavras, a sua "linha de caminho", a sua "linha de entrada e saída", "muitas vezes, até para me poder aproximar do que é a essência dessa ficção ou para se constituir uma nova ficção", observa.

"Quando você coloca tanto um filme como uma peça, e você tem um espectador que assiste, aquilo imediatamente é entendido como ficção. Ou seja, o que é real e o que não é real, em cena, é mesmo muito relativo. Mas esse material que parte do aqui e do agora e da relação com o momento presente, com as questões que são do mundo, são fundamentais para a constituição do corpo do trabalho", disse Christiane Jatahy. "Isso é uma das partes importantes do meu trabalho, juntamente com a escolha do texto", ou seja, "do local onde quero aportar".

Outra das variáveis importantes no trabalho da criadora é o espaço. "Espaço não como cenografia, mas no sentido de questionar como é que o espetador o vai ver. Espaço como a relação que vai usar, da perspetiva do espetador em cena", sublinha. Duas variáveis que a criadora considera muito importantes no seu trabalho, uma vez que têm sempre a ver com o passado, "enquanto memória que nos forma", e com "o presente que se vive", conclui.

Um novelo que se vai desenrolando

Na apresentação da Artista na Cidade 2018, Tiago Rodrigues, o diretor do D. Maria II, onde Jatahy apresentará três espetáculos, sublinhou que esta viagem que vão iniciar com a criadora brasileira "pode ser uma resposta à armadilha de consumo cultural". "E pode permitir que o artista se inscreva na cidade e a transforme, e a cidade se deixe transformar por ela", disse.

"Christiane Jatahy é uma das artistas de maior relevo do teatro em todo o mundo" e, "mantendo-se intransigente e singular na sua perspetiva artística, soube casar o teatro e o cinema de forma singular", sublinhou Tiago Rodrigues. "Também soube casar as grandes narrativas universais com a poesia do quotidiano e com realidades mais locais", frisou. "Complexa, poética, política e difícil", foi como Tiago Rodrigues classificou a obra de Christiane Jatahy. O trabalho de Christiane é um trabalho "de novelo, um novelo que se vai desenrolando nas suas mais diversas direções".

Programa da bienal Artista na Cidade

Além da trilogia a apresentar no Teatro Nacional D. Maria II - Julia, a partir de August Strindberg, a 4 e 5 de maio, E se elas fossem para Moscou, sobre As três irmãs, de Tchekov, de 11 a 13, e A floresta que anda, sobre as vagas de imigrantes e refugiados, de 18 a 20 - e da apresentação de Ítaca, de 7 a 11 de junho, no S. Luiz, a autora apresentará ainda trabalhos no Museu de Lisboa, no Cinema Ideal, na Cinemateca Portuguesa e no Cinema S. Jorge, em setembro e novembro.

Mas ainda em maio, de 7 a 9, e no D. Maria II, a autora dará um 'workshop' subordinado ao tena "Relação.Reação.Criação", enquanto a 19 de maio será apresentado o livro e haverá um debate sobre "Fronteiras invisíveis: Diálogos para a criação de 'A floresta que anda'". E em julho regressa ao D. Maria para trabalhar com os finalistas da Escola Superior de Teatro e Cinema.

De 20 a 23 de novembro, no Museu de Lisboa, integrado no festival "Lisboa na rua", a criadora brasileira apresentará uma 'performance-documentário', intitulado Moving people.Christiane Jatahy diz que este projeto é o primeiro construído a partir do encontro com as pessoas da cidade de Lisboa, e será projetado ao mesmo tempo que está a ser elaborado. "É um projeto sobre memórias no qual vamos tentar descobrir mais o que temos em comum do que o que temos de diferente", referiu.

De 8 a 15 de novembro, no Cinema Ideal - integrado no festival "Temps d'Images" - serão projetados os documentários Utopia.doc (um documentário político sobre os dias de hoje e sobre os novimentos de emigração) e In the confort of your own home (sobre 30 artistas brasileiros de várias áreas que, em 2012, foram convidados a fazer uma ocupação artística em Londres).

Também em novembro, a Cinemateca Portuguesa irá exibir filmes que inspiraram a criadora, sob o título "As escolhas de Christiane Jatahy".

Em 20 e 21 de novembro, o cinema S. Jorge exibirá os filmes Fidélio e A falta que nos move. Fidélio é um filme com as filmagens da ópera de Christiane Jatahy, que fala da injustiça de manter no cárcere presos políticos, e A falta que nos move, sobre uma geração de brasileiros que cresceu sob a ditadura militar.

Em 24 de novembro, um filme-instalação, a realizar no Teatro S. Luiz, a partir de A falta que nos move e com o mesmo título, encerrará o programa de Artista na Cidade 2018. Trata-se de um filme com 13 horas sobre o que aconteceu na filmagem desta criação da autora, que se estende e desdobra desde 2004.

Toda a programação AQUI.

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