À procura de Fernando Pessoa em "Zululuzu"

O Teatro Praga foi à África do Sul procurar Fernando Pessoa e veio de lá com um espetáculo que procura destruir todos os clichés. Estreia hoje, no Teatro São Luiz, em Lisboa.

Em 1896, Fernando Pessoa chegou a Durban, na África do Sul. Tinha oito anos e ficou lá, com a família, até 1901. Esse episódio da vida do poeta português despertou a curiosidade dos elementos do Teatro Praga e é ele que está na base do espetáculo Zululuzu, com que abre a temporada do Teatro São Luiz, em Lisboa. Mas dizer que este episódio está na base do espetáculo não é o mesmo que dizer que este é um espetáculo sobre Fernando Pessoa.

"Há uma coisa que nós costumamos fazer que é trabalhar na anti-expetativa em relação ao nosso trabalho", explica Pedro Penim, um dos criadores do espetáculo. "Ninguém estava à espera que fizéssemos uma revista ou um musical ou uma peça de Shakespeare. E nós decidimos fazer esses pastiches de géneros ou de autores. E este espetáculo integra-se nessa linha de trabalho da Praga. Era completamente inesperado que fizéssemos um espetáculo a partir do Fernando Pessoa mas nos vamos fazê-lo."

Mas, claro, vão fazê-lo à Praga. Ou seja, Fernando Pessoa está lá, esteve lá desde do início do trabalho, acompanhou todo o processo, participou nos ensaios. Eles leram a poesia, falaram com especialistas, como Richard Zenith e, inclusivamente, Pedro Penim e André Teodósio viajaram à África do Sul. Desde logo, a palavra Zululuzu, que junta a África a Portugal, é um achado. Mas, todo o material recolhido foi depois trabalhado como o grupo costuma fazer - desmanchando clichés e disseminando significados. "A nossa maneira de trabalhar, em todos os espetáculos, passa muito por aí, por em causa a normatividade e a leitura única das obras e por combater aquilo a que chamamos de ditaduras invisíveis", explica Penim.

E é também por isso que ao longo de todo o espetáculo os atores, que falam português, francês e inglês, se revoltam contra "caixa negra", a black box que existe em quase todos os teatros e onde geralmente apresentam os seus espetáculos. "A caixa preta é quase um fantasma, mas ao mesmo tempo é uma segurança, é a garantia que nós temos que, seja em que teatro for, temos condições para nos apresentarmos. A caixa negra surgiu como espaço neutro, para não interferir nos espetáculos, mas nós questionamos isso: porquê esta cor? porque se facilita os atores brancos, dificulta a apresentação de tons pele mais escuros, é um dispositivo racista."

Essa desconstrução não se limita às questões do teatro. A proposta é, pois, "fazer o resgate da forma como se lê Fernando Pessoa" e tentar abordar esse cliché juntamente com os clichés de África e com os clichés evocados pela palavra lusofonia. "Não queremos fechar o espetáculo, queremos libertar ideias e sentidos, fugir das ideias pré-estabelecidaas", avança o ator e encenador.

"Não esperem um espetáculo documental ou historicista", avisa Penim. "Não há óculos, bigode e chapéu. Não se ouvem as frases que estão nos pacotinhos de açucar." Mas ainda assim há mais Fernando Pessoa em Zululuzu do que à primeira vista pode parecer e não apenas naquela cena em que uma das atrizes se apresenta na boca de cena como Fernando Pessoa, ele próprio apesar de a voz ser de outro, com 1,73 metros de altura , magro, do signo gémeos, e desfila um pouco da sua biografia ao som de Fernando dos Abba ou de Whatever Will Be por Doris Day. Sim, Fernando Pessoa mas, tal como se diz em palco, não há um Fernando Pessoa nem há o Fernando Pessoa. Ele são vários. "Esta é a nossa versão."

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