A melancolia dos A Winged Victory For The Sullen aterra em Portugal

O projeto dos músicos Adam Wiltzie e Dustin O'Halloran passa por Lisboa, Braga e pela ilha da Madeira. O DN encontrou os dois americanos antes do primeiro concerto

Chamam-se A Winged Victory The For Sullen (AWVFTS). A inspiração para o nome veio-lhes da escultura Vitória de Samotrácia (190 AC) - uma das "joias da coroa" do Louvre - que representa a deusa grega Nike. Em inglês, aquela figura em mármore que pode ser vista na escadaria do museu francês tem o nome de Winged Victory of Samothrace. Adam Wiltzie e Dustin O'Halloran trocaram-lhe o nome por "Sullen", algo como taciturno.

Ao escutar a sua música, depressa apetece traduzir o termo por "melancólico", em conformidade com as paisagens etéreas que a música dos AWVFTS cria quer no primeiro trabalho, o álbum homónimo de 2011, quer em Atomos, álbum que nasceu a partir de um convite de criação por parte do coreógrafo Wayne McGregor para a peça Random Dance.

Em agosto atuaram na sala londrina Royal Albert Hall, na temporada de BBC Proms e Late Night Proms. Agora, a tournée de apresentação de Atomos (2014) sobe ao palco do Teatro Maria Matos, em Lisboa, às 22.00 de quinta-feira e segue, na sexta para o GNRation, em Braga, e para o festival Madeira Dig, na ilha da Madeira, no sábado.

Encontrámos Adam e Dustin no café do Maria Matos no dia anterior ao do primeiro concerto onde se escutará o piano de O'Halloran, compositor da banda sonora da série Transparent ou, por exemplo, de temas para o filme Marie Antoinette, de Sofia Coppola. Ao seu lado no palco, a guitarra e todo o aparato eletrónico manuseados por Wiltzie, ex-Stars Of The Lid, e também compositor de bandas sonoras. Ao mesmo palco subirão seis violinos, três violoncelos e uma viola. A maioria dos quais portugueses.

Levaram cerca de dois anos a terminar o vosso primeiro álbum, enquanto Atomos foi feito em três ou quatro meses. Quão diferente foi o processo?

Adam Wiltzie: Este álbum era uma peça comissariada, por isso tínhamos um prazo definido. Tínhamos mesmo de o acabar, o que foi ótimo. Foi difícil, mas soube bem perceber que conseguimos fazer algo tão depressa. E que às vezes fazer algo depressa pode ser libertador, porque não tens tempo para duvidares constantemente de ti mesmo.

E um do outro?

A: Acho que não duvidamos um do outro. Para mim a dúvida é mais pessoal.

Dustin O'Halloran: [O álbum A Winged Victory For the Sullen] Foi o nosso primeiro trabalho em conjunto. Portanto, não sabíamos por onde íamos, não tínhamos editora, não havia pressa. Tomámos o tempo que achámos necessário. Viajámos muito, gravávamos em sítios diferentes, numa igreja velha em Berlim, misturámos numa aldeia em Itália, gravámos numa radio antiga berlinense. Procurámos sítios acústicos e para trabalhar. Agradava-nos da ideia de que estávamos a cumprir um processo old school, a viajar, em vez de estarmos só fechados numa sala.

O que vos juntou? Já tinham colaborado em Lumière (2011), do Dustin.

D: Conhecemo-nos em Bolonha, em 2007, eu estava a viver em Itália. Estava a trabalhar no novo álbum e ele estava em tournée com os Sparklehorse.

A: Tornámo-nos amigos e começámos a pensar em como seria trabalharmos juntos. Não sabíamos que ia ser tão bom.

Descobriram muitos aspetos comuns?

A: Sim, gostamos de comer.

D: Boa comida. Passávamos bons tempos juntos e eu gostava da música dele.

A: E, mais importante, gostamos um do outro. Tens de dar-te bem com a pessoa com quem vais colaborar.

D: Nós trabalhamos de formas diferentes, mas há algo que adoro na música do Adam: uma abertura no espaço, que senti que tínhamos em comum. E estávamos ambos muito curiosos acerca do processo de criação do outro. Nunca senti que nos íamos atrapalhar.

Conversam muito acerca do que fazem?

A: Sobre o significado do que fazemos não. Mas falamos muito. Porque decidimos há muito tempo que o que fazemos não seria tão fortemente conceptual. Só queremos fazer algo que nos faça sentir bem.

D: Se há coisa de que falamos é acerca do que não pôr na musica. É o que acaba por fazer as ideias, como chegar aos sítios que são realmente fundamentais. Começamos sempre com diferentes ideias, a construir coisas, e o que é realmente importante é perceber aquilo de que precisamos. A nossa música não é muito complexa nas notas, mas passamos muito tempo em detalhes, a tentar perceber o que é essencial. O Adam é ótimo nisso. Eu mostro muitas coisas e ele encontra aqueles três elementos que funcionam muito bem.

A: É o conceito de "menos é mais".

Como nasceu a colaboração com Wayne McGregor?

A: Ele deu-nos a ideia da dança. O nosso disco nem existiria sem ele. Ele deu-nos a inspiração, as ideias.

Que ideias?

A: É um bocado irrelevante. Foi mais: "Quero trabalhar convosco." Ele teve uma influência enorme no sítio aonde fomos parar. Mas não se envolveu no processo. Por vezes ouvia e lançava-nos uma ideia para nos dar algo em que pensar.

Quando se juntou tudo, a música e a dança em Random Dance?

D: Na noite da estreia.

A: E foi aí que dissemos: "Isto soa como um disco."

E decidiram fazer um.

A: Sim.

D: Não tínhamos gravado quase nada. Apenas demos. A primeira vez que tocámos tudo foi na estreia.

Tiveram a dança no pensamento enquanto compunham?

A: O movimento sim, certamente. Primeiro pensámos que tinha de haver mais...

D: Mais movimento do que havia.

A: Sim, e no final ele [Wayne] só queria que fossemos nós próprios.

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