"Odeio o "novo cabaret", cheio de truques retro"

Bruno de Almeida volta a filmar Michael Imperioli e outros atores da mítica série em Cabaret Maxime, o mais nova-iorquino dos filmes portugueses, com estreia marcada para hoje: "Cabaret Maxime".

Um par provável: o realizador Bruno de Almeida e o ator americano Michael Imperioli. Depois de Em Fuga (1999) e The Lovebirds (2007), juntam-se em Cabaret Maxime, história de uma família das artes do cabaret. Entre eles sobra uma cumplicidade que é também "família" de um certo tipo de cinema e de uma maneira de estar na vida. Conheceram-se em Nova Iorque nos 1990 e desde aí tornam-se amigos para a vida e para o cinema.

Conhecem-se desde os tempos em que o Bruno vivia e filmava em Nova Iorque. Por que razão trabalham tão bem juntos?

Bruno de Almeida (BA) - Porque o Michael é o meu ator preferido. Eu, ele, o John Ventimiglia e mais uns quantos formámos um grupo de amigos. Quero sempre trabalhar com eles, sobretudo porque não me vejo como aqueles realizadores que escrevem os seus filmes e depois fazem um casting para achar o seu elenco. Deveria estar no teatro, pois gosto é de trabalhar com uma troupe. Não sou um artista a solo e trabalhar assim é como estar numa banda. Mesmo a escrita passa pela colaboração... E depois há a improvisação dos atores. Por exemplo, este é o terceiro filme com o Imperioli, mas com a Ana já foram quatro e com o Ventimiglia seis. As coisas comigo são assim. Somos um grupo orgânico.

Michael Imperioli (MI) - E, ao longo dos anos, o Bruno ficou melhor. Nos anos 90 nunca tinha conhecido ninguém mais cinéfilo do que ele....

Quando estão no plateau a trabalhar sentem-se em família?

MI - Sim, em família. Eu e o Bruno temos uma colaboração artística. Só o Bruno poderia fazer este filme. É tão cinema nova-iorquino como cinema português. E o que é mesmo impecável é que tem tudo o que ele sempre cultivou: todo o seu amor pela música, o envolvimento no Maxime, a ligação ao Manuel João Vieira e o fascínio pelo Cais do Sodré, que aqui não é filmado como um lugar "cool".

Mas há um fascínio genuíno pelo cabaret e o seu universo...

BA - Sim, mas o que me atrai mesmo são sociedades que funcionam em círculos fechados. Quando fiz os filmes com fado o que me atraía era aquele mundo com as suas regras próprias e o mesmo com o boxe. Estou sempre à procura de uma certa verdade.

MI - Pois, mesmo o burlesco.

BA - Sim, o burlesco. E não pensem que gosto assim tanto de cabaret, é uma outra coisa. Aliás, odeio o "novo cabaret", cheio de truques retro. Não, gosto é do cabaret da velha escola, que tinha vida e que não era estudado. O que era engraçado no Maxime da Praça da Alegria é que o Manuel João Vieira criou um mundo onde era possível incluir rock n"roll. A banda punk-rock do Michael tocou lá em 2006 pela primeira vez.

MI - Era um sítio que tinha uma atração e uma qualidade romântica muito sexy, ou seja, uma decadência muito fixe.

BA - Tinha uma coisa muito real. Nunca fui bem o dono, era um sócio do ponto de vista criativo. Diverti-me muito naqueles tempos e nunca pensei no aspeto de caçar histórias.

MI - Ok, mas fazia parte de um centro de criatividade artística. Devo dizer que também não sou um fã por aí além de cabaret.

Michael, por certo, depois do sucesso de Os Sopranos, foi vítima de "type cast", isto é, começou a ser visto apenas para um determinado tipo de papel...

MI -Sim, mas é preciso lutar contra isso. Se é para ser identificado muito com um papel é bom que seja com algo como Os Sopranos. Fico feliz com isso... Na verdade, é preciso tomar uma decisão. Poderia ter escolhido fazer mais papéis de gangsters mas como ator é necessário procurar outras coisas e fazer filmes como Cabaret Maxime.

Tomar riscos?

MI - Exato. No meu caso, esse "type cast" aconteceu porque sou italo-americano e de Nova Iorque... É preciso continuar a resistir e a provar em cada filme o nosso valor.

Bruno, este filme saiu-lhe do pelo. Desta vez, além de o escrever e de o dirigir, também o produziu...

BA - Alguém tente filmar com tigres reais... Só lhe conto uma história: o homem que tomava conta da tigre-fêmea que vemos no filme, na véspera de rodarmos, conta-me que estávamos com um problema: ela estava com o período! A equipa não quis estar lá naquele momento e fui eu quem foi para trás da câmara filmar apenas com a ajuda da assistente de imagem! Esse é o espírito do verdadeiro cinema independente. E o Michael ajuda como produtor, se eu começava a gritar, ele punha-me na ordem e avisa-me para eu não gritar para a equipa de rodagem...

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