Dez anos depois da 'Dolly' clonagem ganha espaço

A notícia era tão extraordinária que houve um jornal britânico, o Observer, que furou o embargo imposto pela Nature e publicou a notícia. Era domingo e o jornal passou à frente de toda a concorrência, anunciando a existência de uma ovelha chamada Dolly e antecipando de imediato os piores temores sobre a possibilidade que aí se abria de clonagem humana.

Faz hoje dez anos que isso aconteceu e numa coisa o Observer tinha toda a razão: a notícia era bombástica e a polémica que se seguiu, alimentada pelos fantasmas da clonagem humana, nunca se extinguiu completamente.

Na sua edição desta semana, a Nature - onde Ian Wilmut e os seus colegas do Instituto Roslin publicaram, a 27 de Fevereiro de 1997, o artigo dando conta da "fabricação" da ovelha mais famosa do mundo - recorda todo esse processo. E sublinha também a surpresa dos editores de então da Nature perante a tempestade que se instalou na opinião pública a partir daí. Para o staff da revista, o avanço que deu origem à Dolly era a continuação natural do trabalho de Wilmut no ano anterior.

Não entenderam assim os media em todo o mundo, nem as opiniões públicas, nem os políticos, que de imediato iniciaram rondas de reuniões internacionais para proibir a prática de clonagem humana.

Mas qual era afinal a grande novidade da ovelha Dolly?

Os cientistas de Roslin retiraram o material genético de uma célula mamária de uma ovelha adulta e introduziram-no num óvulo previamente despojado do seu próprio material genético. Depois, produzindo uma descarga eléctrica no óvulo assim preenchido, os cientistas conseguiram que ele evoluísse para um embrião, que foi depois implantado na própria ovelha à qual tinha sido retirada a célula mamáriainicial. Dolly, o primeiro mamífero clonado por este processo, sem intervenção de um gâmeta masculino, foi apresentada ao mundo quando já tinha sete meses.

Tanto bastou para que se agitassem fantasmas. E os equívocos sucederam-se. A seita raeliana anunciou em 2002 que tinha clonado o primeiro bebé humano, o que nunca foi verificado. Um cientista sul-coreano, Woo Hwang, reivindicou ter clonado embriões humanos compatíveis com os respectivos dadores de células, o que abria a possibilidade de aplicação terapêutica da técnica. Mas o seu trabalho foi desmascarado como fraude em 2006, lançando novas achas para a fogueira.

Dez anos depois de Dolly ter sido revelada ao mundo, os fantasmas de exércitos de clones parecem esmorecer e os cientistas continuam a defender que há muito caminho para andar. A clonagem de primatas, por exemplo, revelou-se complexa. Mas depois da Dolly já se clonaram outras espécies de mamíferos, como ratos, gatos, cavalos e cães, a investigação da clonagem para fins terapêuticos (com futura aplicação no tratamento de doenças degenerativas ainda sem cura) ganha cada vez mais espaço na opinião pública. E a ciência é imparável. FN

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