Um Reino Unido pelas diferenças

Costuma dizer-se que os britânicos nunca se sentiram verdadeiramente europeus. Aliás, muitos cidadãos do Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte - a designação oficial - não se sentem sequer britânicos, dadas as características especiais de cada país que o compõem. Ao mesmo tempo, há algo que todos partilham e que ajuda a defini-los.

Conduzem pela esquerda (o lado "certo" da estrada, dizem), mantêm uma opulenta monarquia, comem feijão guisado ao pequeno almoço e peixe com batatas fritas ao jantar. Peça-se a qualquer europeu para descrever o Reino Unido em poucas palavras e pelo menos duas destas características serão mencionadas.

Facto é que, apesar dos fatores próprios de cada um dos países que compõem o reino [ver páginas ao lado], existe uma "cultura britânica" subjacente a todos estes povos. O quê exatamente? Não é fácil descrever, mas é algo que os próprios, na cultura popular - de James Bond a Harry Potter - não se cansam de promover.

Nem a fleuma do cavalheiro britânico, aparentemente incapaz de se espantar com seja o que for, nem as escolas internas privadas (chamadas "public" por razões históricas), com uniformes e capas que não destoariam em livros de magia, são razões q.b. para definir o "ser" britânico.

O mesmo se dirá de outras coisas: o "boxing day" (dia a seguir ao Natal, em que tudo está fechado e apenas se realizam jogos de futebol); o Christmas pudding (bolo de frutos secos cozido que, tradicionalmente, se guarda de um ano para o outro); o chá das 5 - se com leite ou com limão depende do tipo da infusão - acompanhado com scones; a incrível propensão para fazer bichas para tudo (sagradas, é impensável "furar" uma fila); a histórica pontualidade; o desconforto com manifestações de afeto ou, até, com prolongados contactos visuais... Nada disto define por completo o que é "ser britânico".

Mas há algo que é só deles: são o único país do mundo sem qualquer documento a que se possa chamar Constituição escrita. Afinal, nunca precisaram dela e vivem na democracia representativa mais antiga do mundo, com regras bem definidas. Nestas ilhas, a confiança nas instituições públicas - com a polícia à cabeça - não decorre de um texto, mas sim da ordem social comummente aceite.

Acima de tudo, não precisam de um papel que lhes garanta que vivem num estado de Direito. Os cidadãos sabem que podem, há mais de século e meio, ir ao Speakers" Corner do Hide Park, em Londres, (ou noutro espaço semelhante existente em quase todas as grandes cidades) dizer tudo o que lhes apetece sem receios de perseguição. Afinal, não poder fazê-lo é que não seria, de todo, "britânico".

Irlanda do Norte. Leis e impostos próprios

A moeda. O banco central irlandês emite libra esterlina própria que formalmente não é aceite no resto do Reino Unido - ao contrário do que acontece com as libras emitidas pelos bancos emissores escoceses.

As leis próprias. A legislação sobre o aborto, por exemplo, é aqui muito mais restritiva, semelhante à da República da Irlanda.

O tipo de democracia. A Irlanda do Norte vota segundo um sistema eleitoral proporcional (em vez dos círculos uninominais maioritários do resto do reino).

Os Impostos. Além de ter regimes fiscais próprios, a Irlanda do Norte ainda recebe dinheiro do Orçamento da República da Irlanda.

Gales. A cidade com o nome mais comprido do mundo

A língua. O galês tem mais de quatro mil anos de existência e é falado por cerca de 20% da população. E até saiu já do sistema solar: as sondas Voyager, da NASA, levam consigo um disco com saudações em 55 línguas da Terra (para o caso de uma civilização extraterrestre a intercetar) e entre elas está o galês. A frase: "Iechyd da i chwi yn awr ac yn oesoedd" traduz-se como "boa saúde para si, agora e para sempre".

A alimentação. As Porphyra umbilicalis, "laver" para os galeses, são algas costeiras que as populações incorporaram na alimentação. Famoso é o laverbread, resultante da cozedura das algas que são depois transformadas em puré.

Os castelos. Gales arroga-se como o país com mais castelos por quilómetro quadrado do mundo. A maior cidade do mundo, ou melhor, a cidade com o maior nome do mundo é Llanfairpwllgwyngyllgogerychwyrndro-
bwyllllantysiliogogogoch. Dizem os serviços de turismo que se traduz por "Igreja de Santa Maria na clareira das aveleiras perto do remoinho de rápidos do estreito junto à ermida de São Tisílio da gruta vermelha".

Escócia. Os Gallus orgulhosos do norte

A moeda. As notas na Escócia são diferentes das de Inglaterra, contendo imagens de escoceses famosos como Alexander Fleming, que descobriu a penicilina, ou o poeta Robert Burns. Ao contrário das notas emitidas na Irlanda do Norte, as da Escócia são aceites no resto do Reino Unido.

O haggis e outras comidas. Só nesta região se come bucho de carneiro recheado com vísceras e farinha de aveia. E os escoceses ainda têm a fama (fundada) de fritar praticamente tudo.

A gaita-de-foles e outras tradições. O som do instrumento que é hoje sinónimo de Escócia era usado para amedrontar os inimigos nas batalhas. E, claro, alguns homens usam saias. Só que chamar-lhes outra coisa que não kilt não é nada boa ideia, até porque...
A personalidade. ... os escoceses dizem de si próprios que são Gallus: irreverentes, confiantes. A palavra é latina: galo, e, tal como o animal, os naturais deste país têm muito orgulho na sua história, tradições e individualidade.

Inglaterra. A Lei Salmão e outras vicissitudes

O chá. Consome-se mais chá per capita em Inglaterra do que em qualquer outro local do mundo.

O táxi londrino. Além da típica forma dos automóveis, um motorista de táxi em Londres tem de passar por rigorosíssimos exames, que o obrigam a saber de cor todas as ruas e percursos da cidade.

Algumas leis. É proibido entrar no Parlamento com uma armadura completa (sim, daquelas dos cavaleiros medievais); é proibido utilizar imagens televisivas da Câmara dos Comuns para fins humorísticos; é proibido manusear salmão (o peixe) de forma suspeita (a Lei Salmão é de 1986); é proibido estar bêbedo em locais onde se vendem bebidas...

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